Ministério
suspende fiscalizações de trabalho escravo
SÃO PAULO - A Secretaria de Inspeção do Trabalho
do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informou, nesta
sexta-feira (21), que suspendeu todas as novas operações
que fiscalizariam denúncias de trabalho escravo no país
por tempo indeterminado.
De acordo
com memorando de Ruth Vilela, chefe da secretaria, direcionado
ao ministro do Trabalho Carlos Lupi, o motivo foi a desqualificação
de uma operação de libertação de escravos
por uma Comissão Temporária Externa do Senado Federal
e ameaças feitas por esta comissão contra os fiscais
do trabalho. Nesta quinta-feira (20), cinco senadores visitaram
a fazenda Pagrisa, localizada em Ulianópolis (PA), que
no dia 30 de junho foi palco da maior libertação
de trabalhadores da história do país. O todo, 1.064
trabalhadores que atuavam na lavoura de cana-de-açúcar
foram resgatados pelo grupo móvel de fiscalização
- formado por auditores fiscais do Ministério do Trabalho
e Emprego ( MTE), procuradores do Ministério Público
do Trabalho e delegados e agentes da Polícia Federal.
A visita parlamentar
contou com a presença dos senadores Romeu Tuma (DEM-SP),
Flexa Ribeiro (PSDB-PA), Kátia Abreu (DEM-TO), Cícero
Lucena (PSDB-PB) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). Eles anunciaram
que irão pedir a abertura de inquérito da Polícia
Federal para verificar os procedimentos adotados pelo grupo móvel
durante a autuação da Pagrisa. Segundo a Agência
Senado, Kátia Abreu afirmou que a empresa "é
muito bem administrada e forma uma comunidade de trabalhadores
rurais", explicando o porquê de uma investigação
aprofundada sobre o grupo móvel. A senadora é uma
das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo.
Quando deputada federal, defendeu os produtores rurais flagrados
cometendo este tipo de crime e atuou contra a aprovação
de leis que contribuiriam com a erradicação dessa
prática.
De acordo
com a Secretaria de Inspeção do Trabalho do MTE,
a visita dos senadores, que atacaram veementemente a fiscalização,
instalou um clima de insegurança que colocou em risco a
continuidade das operações. Vale lembrar que os
auditores fiscais do trabalho que atuam na zona rural têm
sido vítimas de violência por parte de fazendeiros
descontentes com as autuações. O caso mais famoso
foi a chacina de três auditores e um motorista do MTE no
dia 28 de janeiro de 2004, em Unaí (MG), durante uma fiscalização
de rotina. Mas não é o único: em 8 de fevereiro
do ano passado, o grupo móvel foi recebido a balas por
fazendeiros, apoiados por policiais militares, em Nova Lacerda
(MT). Ameaças contra o grupo já eram uma constante
antes das declarações dos senadores.
Os grupos
móveis de fiscalização foram criados em 1995,
quando o Brasil reconheceu formalmente a existência de trabalho
escravo contemporâneo em seu território. Desde então,
essas equipes libertaram cerca de 26 mil pessoas, alçando
o país a exemplo internacional no combate a esse crime,
de acordo com a Organização Internacional do Trabalho.
A suspensão das atividades devido à insegurança
institucional gerada ao ataque público de um dos Três
Poderes pode abalar a reputação do país no
exterior, uma vez que o Brasil não conseguirá cumprir
os compromissos assumidos dentro e fora do Brasil, de erradicar
completamente a escravidão, sem o seu principal instrumento
de combate à escravidão.
O MTE está
consultando a Advocacia Geral da União sobre as medidas
que deve tomar com relação às ações
do Senado.
Em ofício
destinado ao MTE, o subprocurador-geral do Trabalho e coordenador
nacional de combate ao trabalho escravo do Ministério Público
do Trabalho, Luiz Antônio Camargo, endossou o relatório
elaborado pelo coordenador da ação Humberto Célio
Pereira sobre a ação na Pagrisa. A Polícia
Federal enviou um documento semelhante, citando o desacordo com
as leis trabalhistas em vigor e a pressão que o grupo móvel
sofreu durante a fiscalização na fazenda.
O Ministério
Público Federal no Pará ajuizou, nesta sexta-feira
(21), ação penal por trabalho escravo contra Murilo
Vilella Zancaner, Fernão Villela Zancaner e Marcos Villela
Zancaner, proprietários da Pagrisa por causa da ação
de libertação dos trabalhadores. Eles são
acusados de frustrar, mediante fraude ou violência, direito
assegurado pela legislação do trabalho (artigo 203
do Código Penal), expor a vida ou a saúde de outrem
a perigo direto e iminente (artigo 132) e reduzir alguém
a condição análoga à de escravo (artigo
149).
De acordo
com a assessoria do MPF, a gravidade dos crimes cometidos pelos
irmãos Zancaner justifica a aplicação da
pena máxima de 15 anos de prisão. O relatório
do grupo móvel de fiscalização foi analisado
por seis procuradores da República, que consideraram fortes
as provas de "condições degradantes de trabalho
e moradia, infligidas coletivamente aos trabalhadores braçais
nas plantações de cana de açúcar".
A empresa também é acusada de forçar os trabalhadores
a jornadas exaustivas de até 14 horas de trabalho, sem
pagamento de horas extras, já que o ponto de saída
e entrada era assinado ao mesmo tempo pelos fiscais da empresa.
O MPF concluiu,
com base nas provas e no relatório, que os irmãos
Zancaner, "dotados de vontade livre e consciente, reduziram
os 1064 trabalhadores a condição análoga
à de escravo, submetendo- os a trabalhos forçados,
a jornada exaustiva e cerceando a liberdade de locomoção
desses trabalhadores, por meio da dificuldade de saída
da fazenda, pela parca percepção de vencimentos,
atrelada à cobrança excessiva pelos medicamentos
e à cobrança de transporte para a cidade".
A ação tramita na vara federal de Castanhal com
o número 2007.39.04.000812-4.
Legislativo
contra Executivo
A Comissão
Externa foi criada a partir de um requerimento do senador Flexa
Ribeiro. José Nery (PSol-PA) chegou a propor que a visita
contasse também com a presença de membros da Comissão
Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae),
mas a proposição não foi aprovada pelos seus
pares. A Comissão só contou com parlamentares favoráveis
à Pagrisa.
"A demissão
em massa dos empregados vem ocasionando manifestações
discordantes do procedimento empregado pela fiscalização,
especialmente de entidades civis, líderes locais e da população
do município, apreensivos com as conseqüências
da demissão", afirmou na época Flexa Ribeiro.
Desde a megaoperação,
o senador vem realizando lobby pela empresa, que cultiva cana-de-açúcar
e produz açúcar e etanol. Em reunião no gabinete
do ministro Carlos Lupi (PDT), no dia 12 de julho, ele acusou
o grupo móvel de fiscalização do MTE de abuso
de poder. Também estavam presentes na reunião os
deputados Giovanni Queiroz (PDT-PA) e Paulo Rocha (PT-PA), além
do presidente da empresa, Marcos Villela Zancaner, do presidente
da Federação das Indústrias do Estado do
Pará, José Conrado, e do presidente da Confederação
Nacional da Pesca e Aqüicultura, Fernando Ferreira.
Na ocasião,
o ministro Carlos Lupi e a secretária nacional de inspeção
do trabalho, Ruth Vilela, ouviram os duros ataques contra o grupo
móvel e contra o MTE proferidos pelo senador Flexa Ribeiro.
Ele argumentou que a Pagrisa é uma empresa que beneficia
760 mil toneladas de cana, produz 50 milhões de litros
de álcool, tem 1.800 funcionários com carteira assinada,
todos eles com moradia - com água encanada, energia elétrica
e saneamento básico -, atendimento médico gratuito,
plano de saúde subsidiado em 50%, alimentação
subsidiada dentro dos limites da lei..
Humberto Célio
Pereira, coordenador da ação de libertação,
tem sido um dos mais atacados por senadores que defendem a empresa.
Mas ele mantém o que foi escrito em seu relatório
de fiscalização: a situação era degradante,
com trabalhadores que não ganhavam salários, já
que os descontos ilegais realizados pela empresa consumiam quase
tudo o que havia para receber. A comida fornecida estava estragada
e havia várias pessoas sofrendo de náuseas e diarréia.
A água para beber, segundo relato dos empregados na fazenda,
era a mesma utilizada na irrigação da cana e, de
tão suja, parecia caldo de feijão. O alojamento,
de acordo com Humberto, estava superlotado (não havia espaço
para todos) e o esgoto corria a céu aberto. Vindos em sua
maioria do Maranhão e do Piauí, os trabalhadores
não tinham transporte à disposição
para levá-los da fazenda ao centro de Ulianópolis,
distante 40 quilômetros.
A Petrobras
e a Ipiranga, entre outras distribuidoras de combustíveis
signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação
do Trabalho Escravo, afirmaram que estão deixando de comercializar
com a empresa até que seja regularizada sua situação
trabalhista. E aí está a provável razão
para o desespero dos proprietários da usina e de seus representantes
políticos no Congresso.
O ministro
Carlos Lupi defendeu a operação de fiscalização
na Pagrisa em reunião da Conatrae, no dia 31 de julho,
quando os ministérios, demais órgãos públicos
e organizações da sociedade civil que compõem
a comissão divulgaram uma nota pública reafirmando
o apoio às ações do grupo móvel e
criticaram as pressões sobre o combate ao trabalho escravo.
Por diversas
vezes, houve tentativas de interferência política
no trabalho do grupo móvel, principalmente quando os proprietários
das fazendas eram políticos ou empresários importantes.
Um exemplo foi o caso do segundo secretário da Câmara
dos Deputados Inocêncio Oliveira (PR-PE), de cuja fazenda
foram libertados 53 trabalhadores no Maranhão em 2002.
Na época, houve tentativas para se abafar o caso, mas o
governo federal manteve a fiscalização. Da mesma
forma, o MTE e empresas socialmente responsáveis sofreram
pressão de deputados federais, inclusive do então
presidente da Câmara dos Deputados Severino Cavalcanti,
devido à operação de fiscalização
que libertou 1003 pessoas da Destilaria Gameleira, em Confresa
(MT), em junho de 2005. Na época, o ministro Ricardo Berzoini
chegou a expulsar representantes da empresa que vieram pressioná-lo
em seu gabinete.
Mudanças
trabalhistas
Políticos
que apóiam a Pagrisa têm reclamado de que as fiscalizações
rurais são feitas de surpresa, não dando tempo para
os proprietários se prepararem para receber o grupo móvel.
Essa foi exatamente
uma das razões que levou ao MTE a criar uma equipe que
respondesse diretamente a Brasília, sem sofrer interferências
políticas e econômicas regionais. Antes do grupo
móvel, era comum a informação sobre a fiscalização
vazar, dando tempo para o fazendeiro esconder os trabalhadores
e maquiar a situação.
No memorando
que suspende as fiscalizações, a Secretaria de Inspeção
do Ministério do Trabalho e Emprego fala da necessidade
de que as diligências para verificação de
denúncias sejam in loco e sem agendamento prévio,
garantindo o flagrante das condições degradantes
quando elas existem.
De acordo
com o Diário do Pará, Jarbas Vasconcelos e Kátia
Abreu sinalizaram durante a visita que podem propor mudanças
na legislação sobre o tema.
Fazendeiros
têm pressionado para tirar poderes da fiscalização
rural. A última tentativa nesse sentido havia sido a de
aprovar uma lei (a emenda 3 ao projeto que criou a Super Receita)
que previa que os auditores fiscais não teriam poder para
reconhecer vínculos empregatícios no caso de contratos
de pessoas jurídicas, ficando esse dever a cargo da Justiça.
Na prática, isso tirava os poderes da fiscalização,
haja vista que há muitos fazendeiros que montam uma empresa
de fachada para o seu contratador de mão-de-obra empregar
safristas. Dessa forma, ele se livra dos direitos trabalhistas
que também nunca serão pagos pelo contratador -
boa parte das vezes tão pobre quanto os peões. O
Congresso aprovou, Lula vetou e os trabalhadores foram às
ruas para apoiar o veto.
Com as boas
condições mostradas à mídia, os senadores
voltam à Brasília com um fato político construído.
Entidades da Conatrae já apontavam que a visita seria desdobrada
na tentativa de implantação de medidas que restringissem
a fiscalização rural.
O aumento
do interesse mundial por biocombustíveis e a grande demanda
por outras commodities, como carne bovina, faz com que o governo
e parte do empresariado e até dos trabalhadores mirem nos
ganhos econômicos que isso vai trazer. O resultado disso
é que criticar os impactos sociais, ambientais, fundiários
e trabalhistas da cana hoje tem sido visto como um entrave ao
crescimento.
Está
previsto para o dia 5 de outubro uma audiência pública
na Comissão Permanente de Biocombustíveis no Senado
para discutir o caso Pagrisa,solicitada por Kátia Abreu.
Entidades que apóiam a empresa e o proprietário
da Pagrisa foram convidados. Do lado da fiscalização,
apenas o coordenador da operação Humberto Pereira
recebido convite. Para que haja maior equilíbrio entre
os convidados, os senadores José Nery e Paulo Paim (PT-RS)
solicitaram que fossem convidadas sete organizações
que atuam no combate à escravidão e acompanharam
o caso de perto, como o Ministério Público do Trabalho
e a Organização Internacional do Trabalho. O pedido
ainda não foi votado.
NOTA PÚBLICA
SENADOR JOSÉ
NERY ( PSOL - PA)
É grave
o risco de retrocesso na luta pela erradicação do
trabalho escravo no Brasil. Instalou-se uma crise institucional
de grande extensão e profundidade, na última sexta-feira,
21, quando foi anunciada a suspensão das atividades do
Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério
do Trabalho e Emprego, como reação às despropositadas
ameaças às atividades dos fiscais desferidas por
senadores integrantes de uma Comissão Externa do Senado
que visitou na semana passada as instalações da
Pará Pastoril e Agrícola S.A (Pagrisa), em Ulianópolis,
no Pará. Nesta fazenda, localizada a cerca de 450 km de
Belém, foram libertados, no final de junho, 1064 trabalhadores
em condições análogas à escravidão,
resultante de fiscalização consistente e respaldada
na legislação em vigor, cuja seriedade pode ser
comprovada pelo Ministério Público Federal que,
há poucos dias, ajuizou ação penal por trabalho
escravo contra os proprietários da empresa, tendo por base
as evidências recolhidas pelos fiscais federais.
Na contramão
do esforço nacional contra o trabalho escravo, infelizmente,
a Comissão Externa do Senado optou por uma postura de alinhamento
incondicional aos interesses da empresa denunciada, sem que houvesse
o menor senso de equilíbrio e pluralidade que um caso desta
complexidade exigia. Foi com consternação, por exemplo,
que assisti a maioria dos integrantes da Comissão recusar
a inclusão na referida visita de representantes do Grupo
Móvel, do Ministério Público do Trabalho
e da Comissão Nacional Para a Erradicação
do Trabalho Escravo ( CONATRAE). Recusada essa preliminar básica,
julguei que não estavam dadas as mínimas condições
para que pudesse me integrar aos trabalhos da Comissão,
posto que se orquestrava um palco para a desqualificação
e enfraquecimento das ações desenvolvidas no âmbito
da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do Ministério
do Trabalho, tão competentemente coordenada pela secretária
Ruth Vilela.
Diante do
referido impasse, na condição de presidente da Subcomissão
Temporária de Combate ao Trabalho Escravo da Comissão
de Direitos Humanos e Legislação Participativa do
Senado Federal, convocarei, para esta semana, reunião desse
colegiado em caráter de emergência, para debater
e deliberar um conjunto de medidas que contribua para o imediato
restabelecimento das ações de combate ao trabalho
escravo no país. Da mesma forma, entrarei em contato com
o ministro Paulo Vanuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos
da Presidência da República, solicitando que seja
convocada, no prazo mais curto possível, uma reunião
da Comissão Nacional Para a Erradicação do
Trabalho Escravo – CONATRAE, a fim de adotar providências
para garantir as condições de segurança e
de respaldo institucional às atividades realizadas pelo
Grupo Especial de Fiscalização Móvel.
Brasília,
24 de setembro de 2007.
Senador JOSÉ
NERY (PSOL-PA )
Presidente
da Subcomissão Temporária do Trabalho Escravo
Brasília,
Senador José
Nery Azevedo
Líder
do PSOL
Comissão
Pastoral da Terra – Secretaria Nacional
Assessoria
de Comunicação
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NOTA
PÚBLICA
Agronegócio
tenta flexibilizar combate ao trabalho escravo
A Secretaria
de Inspeção do Trabalho anunciou no último
dia 20 a suspensão por prazo indeterminado de todas as
fiscalizações de denúncias de trabalho escravo
no país. Esta decisão visa resguardar a segurança
dos funcionários integrantes do Grupo Móvel frente
às ingerências sofridas no exercício do seu
papel legal, especialmente a partir da fiscalização
da Usina Pagrisa, no Pará, realizada no final de junho,
resultando na retirada de 1.064 cortadores de cana.
O corte imediato
das compras de etanol da Pagrisa pelas distribuidoras de combustível
despertou sucessivas manifestações de desespero
nos setores ligados à bancada ruralista do Senado Federal:
pressões diretas sobre os integrantes do Grupo Móvel,
no dia mesmo da fiscalização, visando paralisá-la;
audiência conturbada, em seguida, no gabinete do ministro
do trabalho, com ataques virulentos contra a Dra. Ruth Vilela,
secretária da fiscalização do MTE; aprovação
de requerimentos no Senado organizando a visita in loco de uma
comissão de senadores e programação de uma
audiência, a pedido da senadora Kátia Abreu, para
inquirir o coordenador da operação de fiscalização
na Pagrisa, Humberto Célio, intimado a comparecer sozinho
em meio a 'leões' todos declaradamente hostis ao princípio
mesmo da fiscalização.
Em função
disso, a Comissão Pastoral da Terra, em acordo com seus
principais parceiros, está solicitando a convocação
extraordinária da CONATRAE, Comissão Nacional para
a Erradicação do Trabalho Escravo.
Simbolicamente
escolhido na hora em que as oportunidades abertas no mercado mundial
para o etanol brasileiro parecem sem limites, o caso Pagrisa se
tornou a bola da vez para os detratores do combate ao trabalho
escravo, empenhados há tempo numa queda de braços
com o Governo Federal visando acabar de vez com o poder de fogo
da fiscalização do trabalho escravo nas terras do
agronegócio e desqualificar a política nacional
de erradicação em vigor no país desde 2003.
O ministro
do trabalho, Carlos Lupi, defendeu abertamente a operação
de fiscalização na Pagrisa em reunião da
Conatrae, no dia 31 de julho, quando todos os integrantes da Comissão
– com exceção da CNA - aprovaram uma nota
pública de apoio às ações do grupo
móvel. Também endossaram o relatório da fiscalização
produzido pelo Grupo Móvel a Coordenação
Nacional do Combate ao Trabalho Escravo do Ministério Público
do Trabalho ( CONAETE) e a Polícia Federal. Por sua vez,
o Ministério Público Federal no Pará ajuizou
ação penal por trabalho escravo contra os proprietários
da Pagrisa.
Como era de
se prever, o resultado da visita da comissão do Senado
ao local, dois meses e meio após o ocorrido só podia
revelar um cenário de relações trabalhistas
idílicas e resultar em mais um round de deboche contra
a atuação dos fiscais. O cúmulo é
o requerimento apresentado pelos senadores à Polícia
Federal para instauração de inquérito contra
os fiscais visando apurar vários crimes, tais como abuso
de poder e falsidade ideológica.
A crise atual
é deliberadamente provocada por setores que não
pouparam esforços para desacreditar e derrotar a política
nacional de combate ao trabalho escravo (Ação Direta
de Inconstitucionalidade ( Adin) contra a 'Lista Suja' dos proprietários
flagrados com escravos; bloqueio de mais de 12 anos contra a aprovação
da PEC do confisco das terras onde for constatada a prática
da escravidão) e que hoje confirmam seu intento de aprovar
'possíveis mudanças na legislação
que dispõe sobre trabalho em condições degradantes',
ou seja: apresentar novos projetos visando enfraquecer o combate
ao trabalho escravo. O auge do enfrentamento ocorre exatamente
no momento em que vários estados, também interessados
em se livrar da mancha vergonhosa da escravidão moderna
associada à sua principal pauta de exportação,
têm anunciado planos para se juntarem à política
federal de combate ao trabalho escravo e, com ela, somar forças
(Maranhão, Tocantins, Bahia, Pará, Piauí
e até Mato Grosso).
A Comissão
Pastoral da Terra recusa a opção enganosa imaginada
pelos detratores do combate ao trabalho escravo entre produzir
a contento e garantir a dignidade do trabalho, e denuncia sua
perversa manobra.
O momento
atual é decisivo para a definição dos rumos
a serem seguidos daqui para frente:
- Será
que, em nome dos imediatos interesses mercantis do crescimento
do agronegócio, tudo deve ser permitido e o combate à
escravidão também 'flexibilizado'?
- Ou será
o Brasil capaz de fazer das oportunidades que se lhe apresentam
hoje no mercado mundial a ocasião para corrigir de vez
as conhecidas mazelas de um modelo de desenvolvimento incompatível
com as universais exigências de dignidade no plano do trabalho
e de sustentabilidade no plano ambiental?
Goiânia,
24 de setembro de 2007
Coordenação
Nacional da Comissão Pastoral da Terra
Coordenação
da Campanha da CPT contra o Trabalho Escravo