Bullying
e assédio moral: outros ovos da serpente
Muitas pessoas são perseguidas por pertencerem
a grupos sociais, no contexto, em desvantagem. Ninguém
revela, em profundidade, porque perseguiu ou está perseguindo.
O preconceito imanente ao ato permanece secreto e negado pelos
algozes.
Luís
Carlos Lopes*
Em
vários ambientes, tem sido notada a presença de
relações interpessoais baseadas em diversos tipos
de agressão. Estas estão longe de ser os antigos
apelidos, a tentativa de integração por meio de
rituais de aceitação do novato pelo grupo ou o
velho costume de afirmar moderadamente a superioridade real
ou imaginária de uns sobre os outros. Essas novas práticas
referem-se ao ataque radical aos mais fracos, aos que têm
maiores dificuldades de se defender, aos diferentes etc. Em
inúmeros casos, chega-se à agressão física
e/ou ao constrangimento moral total.
As
conseqüências destas práticas entre crianças
e adolescentes são muito graves. Levam, por exemplo,
ao abandono e à evasão escolar e à construção
de personalidades formadas e tangidas pelo medo e pelo ressentimento.
Não são menores, quando atingem adultos, podendo
provocar a perda de empregos, o isolamento social e facilitar
o desenvolvimento de doenças de natureza psicológica.
Existem os casos que levam ao suicídio ou ao assassinato.
O linchamento moral é algo que se assemelha ao linchamento
físico. Deseja-se a morte de seu objeto. Se ela não
é possível de fato, quer-se alcançar a
destruição e/ou o afastamento/expulsão
de seus alvos.
O
bullying infanto-juvenil escolar é um tipo de assédio
moral absurdamente irracional que rompe com as velhas regras
de coleguismo e de espírito de grupo. É muito
diferente das antigas brigas de turma de colégio, isto
é, confrontos entre grupos de origens diversas. Ele ocorre
no seio da mesma instituição, entre alunos que
se conhecem e muitas vezes são vizinhos. São comuns
entre adolescentes de várias faixas etárias. Alguém
é escolhido para ‘pato’. Nesta pessoa, o
ódio do grupo é depositado com vigor, incluindo-se
xingamentos e episódios lamentáveis de violência
física. Com as facilidades de gravação
e difusão disponíveis, estas barbaridades chegam
algumas vezes à Internet e até a TV.
O
assédio moral no ambiente adulto assume inúmeras
variações, que respeitam o contexto específico
onde ele ocorre. Trata-se de uma forma de abuso, que usa de
subterfúgios para tentar destruir o objeto escolhido.
A ‘fofoca’ transforma-se na intriga, na invencionice
e na maledicência. Os limites entre o público e
o privado são abandonados e desconsiderados. As pessoas
são atacadas de acordo com os preconceitos acreditados.
São pressionadas, admoestadas e maltratadas, sem que
isto se relacione de modo direto com as atividades que desenvolvem.
Há
sempre objetivos não revelados nestes ataques. A variação
é muito grande. Há quem tenha prazer pessoal sádico
enlouquecido de agir assim, destruindo pessoas. O ódio
pode ser alimentado por ciúmes, invejas e demais sentimentos
dos baixos instintos. É comum que estas manifestações
também escondam outros motivos de ordem política,
ideológica e moral. Os que praticam o assédio
raramente revelam os seus verdadeiros motivos para tentar destruir
alguém que está tão próximo. Normalmente,
eles projetam em seus alvos suas frustrações e
incapacidades profissionais e pessoais.
Estes
fatos ocorrem nas áreas públicas e privadas, sendo
comum em sociedades com a vivência histórica e
social de alto grau de violência real e simbólica.
A existência de mídias centradas na exibição
acrítica da violência explica parcialmente o problema.
A fragilidade da capacidade de mobilização macropolítica
atual tem outro quinhão. Há registros da ocorrência
de casos em escolas de qualquer nível. Tais práticas
refletem a dificuldade de integração dos grupos,
porque não existe o entendimento mútuo, ou porque
ele não é desejado por quem detêm o poder
micropolítico em cada organização. Isto
leva a algumas pistas para compreender o que vem acontecendo.
Com
o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, o individualismo
e a competição interpessoal cresceram muito. Quanto
mais alienado e convencido pelas prédicas do sistema,
as pessoas mais se imaginam como indivíduos isolados
que deveriam disputar todo o dia uma espécie de corrida
pela taça de ouro, pisando em quem estiver por perto
ou possa atrapalhar. Junto a isto, o velho carreirismo transformou-se
em algo natural. Quem não o adota é visto como
uma avis rara, que precisa ser eliminada.
A
vida para o prazer, isto é, o hedonismo radical cria
um certo vazio, quando não se pode consumir o que a publicidade
tanto alardeia. É neste vazio, nesta falta de sentido
para a existência, que se forma a cultura da violência
sem motivo ou razão aparente. A farsa da vida é
preenchida por algo que lhe dê uma direção
de poder, alimentando com o ódio o que não pode
ser preenchido com os limites do sistema. Não posso comprar
tudo o que vejo, mas posso tiranizar os mais próximos,
sem maiores problemas.
Imaginando-se
a situação de alguém mais produtivo e eficiente,
é usual que o coletivo onde esteja inserido, se for fraco
e descompromissado, o veja com desconfiança e incompreensão.
Daí é um passo para se tentar destruí-lo,
porque ele funciona como uma espécie de espelho das fraquezas
dos demais. Algumas vítimas de bullying são os
alunos mais esforçados e inteligentes. O assédio
moral é fortemente usado para agredir os que, no ambiente
de trabalho corrompido, têm um comportamento que os diferenciam
pela responsabilidade, independência de qualquer fonte
de poder, seriedade e capacidade profissional. As críticas
recebidas pelos servis e bajuladores não se podem enquadrar
em atos de assédio, até porque, no atual contexto,
elas são raras e se vinculam a outra compreensão
política do mundo.
O
assédio moral é um conjunto de práticas
violentas relacionadas às ideologias preconceituosas
que assolam as mentes do tempo presente. Nos atos de violência
que o caracterizam encontram-se facilmente elementos do racismo,
do sexismo, da homofobia, do idadismo e do preconceito contrário
à inteligência. A orientação político-ideológica
e a formação moral também podem ser motivos.
Muitas pessoas são perseguidas por pertencerem a grupos
sociais, no contexto, em desvantagem. Ninguém revela,
em profundidade, porque perseguiu ou está perseguindo.
O preconceito imanente ao ato permanece secreto e negado pelos
algozes.
A
violência do bullying escolar transforma-se facilmente
em vias de fato. O assédio moral, entre adultos, raramente,
gera episódios físicos de contato direto. Todavia,
são conhecidos inúmeros casos de violência
verbal, de isolamento de pessoas e outros atos de hostilidade
direta ou disfarçada. Os mestres do assédio são
hábeis manipuladores, capazes de arregimentar a outros,
com suas mentiras e intrigas. Procuram, como na inquisição
medieval, ‘queimar’ suas vítimas, buscando
um consenso de grupo sobre os alvos escolhidos. Os danos provocados
são evidentes. Perde o grupo por produzir sua própria
autofagia. Perde a vítima que nem sempre consegue suportar
e resistir, desestruturando-se.
No
assédio moral, há elementos do fascismo líquido
já comentado em outras oportunidades. Não é
necessário que os executores do assédio saibam
sua coloração política ou compreendam a
que deuses servem. Estando envolvidos no processo, eles simplesmente
repetem o que apreenderam com outros manipuladores. Manipulam
e acabam sendo presos da mesma teia que ajudam a tecer. Os verdadeiros
donos da teia, por vezes, estão longe e são invisíveis
para os algozes e suas vítimas. Urge rasgar a cortina
e revelá-los.
Em
todas sociedades humanas sempre existiram fortes e fracos. As
crianças, principalmente as mais pobres, são os
mais fracos de nosso tempo. Mas, há outros e outros grupos
que precisam de proteção. Diz-se que há
civilização, direitos humanos etc, se os fracos
são protegidos dos que tem mais poder. Se isto não
existe, vive-se em plena barbárie.
(*)
Luís Carlos Lopes é professor e escritor.