Déficit
previdenciário é falso argumento contra benefícios
aos aposentados
Nenhuma
das conquistas dos aposentados sequer ameaça as contas
da previdência. Aliás, é preciso ressaltar
a imensa fraude que se criou em torno de sua suposta insolvência,
envolvendo agentes do governo interessados em incrementar ainda
mais o rentismo e uma mídia "pró-mercado
financeiro", como assinala a economista do IPEA Denise
Gentil. "No ano passado, o governo gastou no chamado item
Gastos Financeiros da União 380 bilhões de reais.
É um volume muito alto de recursos que 'precisa' ir para
o sistema financeiro, daí seus altíssimos lucros.
Como não tem 1 bilhão de reajuste para os aposentados?",
indaga o economista Washington Lima.
É
certo que vivemos uma era de desencanto com a política,
com cada vez mais pessoas desinteressadas do debate de idéias
e de programas de ação. Mas, para o observador
atento, o ano eleitoral também pode ser pródigo
em revelar toda a hipocrisia que cerca as políticas de
governo e os posicionamentos de inúmeros parlamentares.
Salta
aos olhos a gritante prioridade que certos setores sociais e
econômicos desfrutam, sempre premiados por medidas e ajustes
fiscais impostos ao país, enquanto parlamentares resolvem
em massa buscar a satisfação de seus eleitores,
e não de seus financiadores, quando se trata de temporada
de renovação legislativa.
E
é dentro dessa imensa casa de tolerância e flexibilidade
moral que se tomou uma importantíssima decisão
em favor dos aposentados do país, tão freqüentemente
vilipendiados pelas políticas decididas em Brasília.
Primeiro, a Câmara dos Deputados aprovou o reajuste de
7,71% para os trabalhadores inativos e o fim do fator previdenciário
(uma fórmula, criada no governo FHC, que leva em conta
o tempo de contribuição do trabalhador, sua idade
e a expectativa de vida dos brasileiros no momento da aposentadoria).
Mesmo com o escarcéu fiscalista, na terça-feira,
19 de maio, foi a vez de o Senado dar sinal verde ao projeto.
Falta agora somente a sanção de Lula.
O
'tamanho' do reajuste de 7,71%
"Acho
o reajuste uma medida justa, porque são pessoas que contribuíram,
receberam aposentadorias que foram ficando defasadas e agora
têm a oportunidade de receber reajuste num período
de crescimento do país. A disponibilidade derecursos
orçamentários cresceu e essa recomposição
pode ser feita com tranqüilidade. É uma medida justa",
disse ao Correio da Cidadania a diretora de macroeconomia do
IPEA Denise Gentil.
Para
alguns, seria até possível oferecer um aumento
superior, vide o (verdadeiro) orçamento do país
e as perdas acumuladas com as reformas aplicadas à previdência,
sempre prejudiciais aos trabalhadores. "O governo, em função
do que tem gasto nos últimos anos com pagamento de juros
e da dívida pública, poderia dar um reajuste bem
maior que esses 7,71%. Eu analiso assim. Até porque há
uma defasagem muito grande nos valores da aposentadoria",
afirmouWashington Lima, economista do Sindicato dos Trabalhadores
do Judiciário.
Conforme
exploramos a questão, podemos ver como tal aumento dos
proventos dos aposentados é 'café pequeno' diante
das cifras que o país tem manejado. Além do mais,
com as pressões do ano eleitoral, parece difícil
que não se atendam aos desejos desses cidadãos
que têm acompanhado com afinco os trabalhos no Congresso
e feito um corpo-a-corpo que até aqui se mostra bem sucedido.
Para
conceder tal benefício, o próprio ministro da
Fazenda Guido Mantega entregou o ouro e deixou claro que não
haverá a mínima fissura nas contas do país,
como gostam de alardear os cavaleiros do apocalipse previdenciário.
Em relação aos 6% oferecidos pelo governo, o reajuste
de 7,72% significa 2 bilhões de reais a menos nos cofres.
O que só pode nos levar a pensar se toda a discussão
em torno dessa diferença não é acima de
tudo patética.
"Acho
que a sociedade tem de se conscientizar de que o Banco Central
aumentou a Selic em mais 0,75% e ninguém faz muita questão
de discutir isso. Cada ponto percentual da Selic significa uma
despesa de mais de 10 bilhões de reais por ano. E qual
contribuição os rentistas deram para receberem
a mais alta taxa de juros do planeta? Já os aposentados,
contribuíram e agora pedem restituição.
E quem paga esse aumento de Selic, que custa 10 bilhões
ao ano? Tiram pela DRU (Desvinculação de Receitas
da União), um dinheiro destinado principalmente à
seguridade social. E essas coisas não são contestadas.
Mas quando os aposentados, que passaram a vida trabalhando e
contribuindo, pedem uma recomposição, é
tido como algo que vai quebrar o orçamento", indigna-se
Denise Gentil.
No
entanto, o que ressoa na nossa mídia, de orientação
neoliberal e anti-estatista, são os fantasmas do rombo
da previdência, dificuldades futuras com o envelhecimento
da população e a tão aclamada responsabilidade
fiscal, o que nubla o debate e dá a entender que dar
mais dinheiro aos aposentados é arriscar o pão
de cada dia do país todo. "Há uma conta no
orçamento que se chama Cobertura de Prejuízos
do BC, feita para cobrir toda a operação que o
BC faz em favor da especulação financeira, principalmente
em taxas de câmbio. Nos quatro primeiros meses de 2010,
essa conta já causou um rombo no governo de mais de 55
bilhões de reais. Só o BC dá um prejuízo
mensal ao país, para sustentar a especulação
financeira, de 14 bilhões de reais", revela Washington.
Tamanha
aberração, no entanto, apenas desnuda para quem
e para que trabalham os eleitos da democracia brasileira. "Portanto,
o governo tem amplas condições de cumprir o reajuste,
é um absurdo dizer algo em contrário. Acabaram
de anunciar que vão mandar dinheiro ao FMI para ajudar
a Grécia. Ou seja, o problema não é orçamentário,
é de outra natureza, política, de prioridades
do governo", sintetiza.
O
fator previdenciário e o falso déficit da Previdência
Outra
boa notícia que não deve ser barrada nem pelo
governo convertido à ortodoxia, à responsabilidade
fiscal e à governabilidade é o fim do fator previdenciário.
Uma estranha fórmula criada no governo FHC que, no final
das contas, abocanha cerca de 30% do que o trabalhador tem a
receber como aposentadoria e que, notadamente, dificultou a
vida de muitos brasileiros. "É uma medida da era
neoliberal, que precisa ser sepultada, como o foram várias
outras da mesma época, dos anos 90", aprova Denise.
"Se
fizermos as contas, e qualquer um pode fazer essa conta, o que
o trabalhador paga à previdência, sem contar a
contribuição patronal, já é suficiente
para cobrir sua aposentadoria. Se considerarmos que ele paga
o dobro em relação às empresas, teremos
uma situação em que o trabalhador na verdade pagou
muito caro para ter o beneficio em valor integral. E, com o
fator previdenciário, ele tem redução para
menos da metade do valor para o qual ele contribui, ou mesmo
do salário mínimo", explica Washington.
Como
revelou este Correio em Especial no ano de 2007 - Previdência:
uma longa história de fabricação de mitos
rumo à privatização -, nenhuma das conquistas
acima citadas sequer ameaça as contas da previdência.
Aliás, é preciso ressaltar a imensa fraude que
se criou em torno da suposta insolvência da previdência,
tendo em vista as suas próprias contas e o orçamento
da seguridade social, envolvendo agentes do governo interessados
em incrementar ainda mais o rentismo e uma mídia "pró-mercado
financeiro", como assinala a economista do IPEA.
"Há
um estudo de três anos atrás, de um economista
chamado Amir Khair, mostrando que muitos daqueles que se aposentam
por tempo de contribuição, e têm sua aposentadoria
ceifada pelo fator, voltam a trabalhar, pois se aposentam lá
pelos 54, 55 anos. Portanto, ainda capazes de trabalhar, voltam
a recolher INSS. Não apenas recolheram durante o período
ativo, como o fazem na fase de aposentadoria, por voltarem a
trabalhar. O estudo prova que o saldo do tesouro é positivo,
favorável", diz Denise, autora de tese na UFRJ que
também desmistifica o tal rombo.
"É
uma falácia, né? A história é mais
ou menos assim: a previdência incorporou, a partir de
1988, milhões de trabalhadores, especialmente rurais,
que passaram a ter direitos dentro dela. Essas pessoas que passaram
a ter os benefícios, por razões óbvias,
nunca tinham contribuído para a previdência. Mas,
quando se criou essa despesa, a Constituição também
criou uma receita correspondente para cobri-la. Se juntarmos
a receita previdenciária, vinda de trabalhadores e empresas,
mais os tributos criados (como CSLL, COFINS e tantos outros),
a previdência é altamente lucrativa. A imprensa
e o próprio governo divulgam uma conta que não
existe legalmente e nem contabilmente. O que se tem efetivamente
é um grande superávit, computando suas receitas
strictu sensu mais as contribuições que a Constituição
criou justamente para cobrir a massa de trabalhadores incorporada",
vaticina Washington Lima.
Argumentos
falaciosos e catastrofistas por trás do suposto déficit
"No
ano passado, o governo gastou no item chamado Gastos Financeiros
da União 380 bilhões de reais. É um volume
muito alto de recursos que 'precisa' ir para o sistema financeiro,
daí seus altíssimos lucros. Não a totalidade,
mas base significativa vem destes papéis. Então,
como não tem 1 bilhão de reajuste aos aposentados?",
questiona Washington.
Dessa
forma, fica explícito que estamos diante de uma discussão
"descabida", como definiu Denise Gentil. "Não
é correto, justo, legítimo, prejudicar as pessoas
no fim de suas vidas, quando elas se aposentam e muitas vezes
precisam de tratamentos caríssimos e cuidados de saúde.
Você ferra essa camada da população, mas
não questiona o aumentode 10 bilhões de reais
na sangria dos cofres públicos para cada ponto percentual
na Selic. É uma discussão totalmente desproporcional
e só posso enxergar nisso propaganda dos meios de comunicação
do país, que são totalmente pró-mercado
financeiro".
"Após
a votação, veio toda a grita da grande imprensa:
acusações de irresponsabilidade, de farra com
dinheiro público. Nenhuma palavra, mais uma vez, sobre
os gastos escandalosos com o pagamento de juros e rolagem da
dívida pública, que, somente no ano passado, consumiram
R$ 380 bilhões (36% do orçamento do país)
em juros e amortizações. Já para os aposentados,
sempre falta dinheiro", lembrou o deputado federal do PSol-SP
Ivan Valente, que presidiu a esvaziada (por quê?) CPI
da Dívida Pública.
Além
disso, a economista do IPEA não enxerga nada tão
preocupante como outra teoria acerca da previdência, a
de seu inchaço com o futuro envelhecimento da população
brasileira, que em 2050 deve inverter a proporção
de jovens e idosos. "São visões catastrofistas.
Haverá um inchaço, mas não se leva em conta
que, no futuro, teremos uma sociedade cada vez mais produtiva,
produzindo bens e serviços em quantidades maiores com
contingentes menores. Portanto, vão gerar um PIB maior,
o que permite que se sustente perfeitamente nossa previdência.
Tais cálculos normalmente subestimam a capacidade produtiva,
tecnológica e de crescimento de uma sociedade capitalista",
explica.
De
resto, deixa-se de levar em conta a alta taxa de informalidade
em nossa economia, haja vista que ao menos um terçode
nossa população economicamente ativa não
está incorporada à seguridade social. Com o crescimento
e qualificação denossa economia, o número
de trabalhadores inseridos cresce substancialmente, e com isso
a receita previdenciária.
"O
que contra-arresta qualquer crescimento da população
idosa é a boa política macroeconômica, de
geração de emprego, de incorporação
do maior número possível de pessoas em idade de
trabalhar ao mercado de trabalho, pois, se tiverem emprego,
vão gerar tudo que a sociedade necessita para sustentar
nossa população idosa. Não é possível
que preguem como a melhor saída reduzir a renda dos nossos
idosos. É uma solução impatriótica,
anti-cidadã. Para não dizer imoral", completa
Denise.
"É
aquela história, na Europa, não existia dinheiro
na previdência, mas, quando os bancos quebraram, trilhões
e trilhões de dólares, euros, desaguaram. Aqui
é a mesma coisa, a previdência está mal,
mas, para cobrir os bancos na crise, o dinheiro apareceu sem
grandes problemas. Portanto, o que se tem é uma grande
falácia sobre a questão", criticaWashington.
Volto
ao meu raciocínio: esse país não quer dar
correção de aposentadoria a uma parcela que representa
6% do total dos benefícios concedidos de acordo com o
fator previdenciário, e para uma parcela pequena de idosos
que recebe acima do mínimo, que corresponde a mais ou
menos um terço do contingente dos aposentados. Mas é
o mesmo país que não debate as taxas de juros
mais altas do mundo. Deveria se dar o devido peso às
duas questões", resume Denise Gentil.
Crise
financeira e nova rodada de ataques aos direitos sociais
Face
à evidência de que a crise iniciada em 2008 ainda
não foi estancada, o que a situação grega
e de outros países europeus vem a demonstrar cabalmente,
novas socializações de perdas podem ser lançadas
à população como medidas inevitáveis,
ainda que esperem pelo fim do ano eleitoral. Não é,
pois, difícil de desconfiar que esteja em andamento mais
um ataque aos direitos dos trabalhadores.
Na
última debacle do capital, desonerações
foram feitas em nome da sustentação de empresas,
bancos e créditos. Mas nada disso impediu as demissões
e flexibilizações de direitos, além do
sumiço do dinheiro jogado na economia pelo governo, que
foi parar em novas especulações e na cobertura
de rombos das matrizes.
Tramitam
já no Congresso diversos projetos de lei e emendas constitucionais
nesse sentido: o PLP 549 (que congelaria salários do
funcionalismo público por 10 anos!), o PLP 248 (contra
a estabilidade), PEC 306 (pelo fim do Regime Jurídico
Único), Decreto 6.944 (política produtivista)
e a MP 431 (avaliação de desempenho). São
todos de orientação sempre combatida pelos trabalhadores
e que ainda podem avançar.
Por
hora, é torcer para que não sejam barrados pelo
presidente Lula o reajuste aos aposentados e o fim do fator
previdenciário, já aprovados no Senado.
Gabriel
Brito - jornalista.