Os prazeres que vêm do cérebro
: Descobertas
para uma nova ética
HÉLIO
SCHWARTSMAN
Óleo sobre tela de Ana Prata
resumo
Estudos recentes estabelecem as bases neurológicas do
prazer e seu papel central na formação do cérebro.
Modulado pela experiência, o prazer é decisivo
para o cumprimento dos imperativos darwinianos da sobrevivência
e da procriação, mas também está
na origem de vícios e intolerâncias.
O
QUE OBESOS MÓRBIDOS, ESPORTISTAS RADICAIS, alcoólatras,
fetichistas por pés e religiosos têm em comum?
Todos eles são animados pela mesma força motriz:
o prazer.
E o que é o prazer? É difícil dizer. Embora
tenha desde sempre chamado a atenção dos filósofos
-Aristipo de Cirene, um dos discípulos de Sócrates,
fundou a primeira escola hedonista no início do século
4º a.C.-, foi só nas últimas décadas
que a ciência reuniu os recursos necessários para
investigar o fenômeno a fundo, permitindo a elaboração
de hipóteses que avançam para além do terreno
puramente especulativo.
Estamos assistindo ao surgimento da ciência do prazer.
Os resultados dessas pesquisas começam a aparecer em
obras como "How Pleasure Works", de Paul Bloom. A
Folha obteve um exemplar do livro, que será lançado
amanhã nos EUA.
Para a neurociência, a finalidade do prazer é quase
óbvia. Ele serve para fazer com que seres vivos mais
complexos, como aves e mamíferos, persigam os imperativos
darwinianos da sobrevivência e da procriação.
Nem mesmo um Schwarzenegger primitivo andaria com uma tabela
dietética no bolso, mas seu incontível desejo
por açúcares e gorduras o levaria a buscar alimentos
ricos nesses macronutrientes essenciais.
Ao contrário de seu antípoda, a dor, o prazer
não é exatamente uma sensação. De
acordo com Morten L. Kringelbach, vinculado às universidades
de Oxford e de Aarhus (Dinamarca) e autor de "The Pleasure
Center - Trust Your Animal Instincts" [O Centro do Prazer
- Confie nos seus Instintos Animais, Oxford University Press,
304 págs., US$ 24,95, R$45], o prazer resulta da antecipação
e subsequente avaliação de sensações
produzidas por estímulos.
Trata-se, portanto, de um complexo fenômeno psicológico,
ligado ao sistema de recompensa do cérebro e constituído
por processos conscientes e não conscientes. Tem como
subelementos o desejo, o gosto e a aprendizagem. E isso, como
veremos, terá importantes implicações práticas.
Historicamente, o sistema de recompensa foi descoberto por James
Olds e Peter Milner nos anos 50. Seus experimentos consistiam
em implantar eletrodos em diferentes regiões do cérebro
de ratos e ativá-los com eletricidade.
Os cientistas perceberam que as cobaias pareciam gostar de determinados
estímulos. Mudando um pouco os procedimentos, deixaram
que os próprios animais acionassem a corrente através
de uma alavanca. Com isso, mapearam as áreas do cérebro
que se mostravam mais prazerosas. Com os eletrodos nos pontos
certos, os ratos passavam o dia se autoestimulando. Desistiam
do sexo e até da comida. Em uma palavra, estavam viciados.
MOLÉCULA
DO PRAZER As zonas do cérebro então identificadas
como centros de recompensa foram o sistema límbico e
o "nucleus accumbens", cujos neurônios têm
numerosos receptores para o neurotransmissor dopamina, a "molécula
do prazer".
Seria um erro considerar o prazer como um tempero, mero adjuvante
na busca de comida e parceiros sexuais. É uma das principais
forças que nos faz agir. Sem ele, não teríamos
motivação nem para descer das árvores toda
manhã. Não por acaso, a anedonia, perda da capacidade
de sentir prazer, é um traço comum de várias
doenças mentais.
O prazer age primordialmente por vias emocionais, bem mais eficientes
e rápidas do que as racionais. Hamlet pode ficar imobilizado
pela dúvida existencial, mas quem se depara com um urso
sente medo e sai correndo sem pensar, preservando os seus genes
para futuras gerações.
E por envolver a aprendizagem, o prazer garante jogo de cintura
para adaptar-se a eventuais mudanças no ambiente. O animal
que gosta de frutas doces tem mais chances de dar-se bem do
que o bicho que extrai seu quinhão de frutose exclusivamente
de amoras, por exemplo.
Os estudiosos fazem a distinção entre os prazeres
fundamentais (sensórios, sexuais e sociais) e os de ordem
superior (monetários, artísticos e transcendentais).
Em princípio, partilharíamos os primeiros com
outros animais. Já os últimos seriam exclusividade
humana.
PAPEL
ESSENCIAL O caráter adaptativo do prazer, contudo,
é apenas o começo. Gene Wallenstein, neurocientista
que se especializou em biologia das emoções, aponta
o papel essencial do prazer no desenvolvimento e na maturação
do cérebro.
Para entender melhor a tese, desenvolvida no livro "The
Pleasure Instinct - Why We Crave Adventure, Chocolate, Pheromones,
and Music" [O Instinto do Prazer - Por que Clamamos por
Aventura, Chocolate, Feromônios e Música, Wiley,
256 págs., US$ 24,95, R$ 45], é preciso recorrer
a um pouco de genética e embriologia.
O Projeto Genoma Humano identificou algo como 25 mil genes.
Um cérebro de Homo sapiens tem cerca de 100 bilhões
de neurônios; cada um se conecta a milhares de outros,
perfazendo um total de 1014 (o número 1 seguido de 15
zeros) conexões nervosas.
Tamanha desproporção sugere que a informação
genética é insuficiente para especificar o lugar
de cada neurônio no cérebro, bem como os pontos
de ligação com outras células nervosas.
Os genes trazem regras muito gerais de desenvolvimento e migração
neuronal, que vão sendo ajustados ao longo do processo.
A sintonia fina cerebral se faz pela criação de
numerosas ligações entre os neurônios (sinaptogênese),
seguida da eliminação das conexões que
não foram utilizadas (poda). O adjetivo "numerosas"
aqui não é força de expressão. Entre
a metade da gestação e os dois anos de idade,
o cérebro forma 1,8 milhão de novas sinapses por
segundo!
O processo de poda é bem mais lento: estende-se até
o final da adolescência. O prazer funcionaria aqui como
fio condutor, levando o indivíduo, desde a fase embrionária
(sim, fetos já sentem prazer) a buscar as experiências
necessárias para que seu cérebro seja ligado corretamente.
As conexões que mais produzem prazer são constantemente
estimuladas e, por isso, reforçadas; as menos utilizadas
acabam sendo eliminadas.
Para dar uma ideia de quão crítico é o
processo, basta evocar os experimentos feitos com gatos que
têm os olhos tapados ao nascer. Sem a experiência
da visão presidindo à geração e
poda de sinapses, o cérebro deles não aprende
a enxergar. Se a venda só for retirada após a
"fase crítica", os gatos ficam cegos para sempre,
embora seu equipamento óptico esteja em perfeitas condições.
Esse, aliás, é um bom argumento para mostrar que
a dicotomia genes-ambiente (em inglês é mais sonoro:
"nature-nurture") não faz muito sentido. As
instruções embutidas nos genes só ganham
real significado depois de moduladas pela experiência.
PRAZERES
INTRAUTERINOS Segundo Wallenstein, conservamos até
o fim os prazeres que foram importantes na vida intrauterina
e na primeira infância. Um exemplo: bebês gostam
de ser chacoalhados; e gostam porque isso faz bem a eles. É
uma experiência importante, em que o cérebro se
ajusta para lidar com o equilíbrio e o movimento.
O mesmo processo se repete para cada um dos sentidos. Calibrar
o cérebro para a visão, por exemplo, exige que
nos exercitemos na observação de cores, linhas
e, em especial, no reconhecimento de faces. Daí o nosso
gosto inato pelas cores primárias, pela simetria e a
verdadeira obsessão humana por rostos. De modo análogo,
a curiosidade sonora do bebê e seus balbucios já
são a primeira fase da aquisição da linguagem.
A eficácia da estimulação cinética
nos primeiros meses de vida foi demonstrada num experimento
com gêmeos idênticos. O bebê que foi mais
sacudido começou a andar quatro meses antes de seu irmão.
Como o gosto pela agitação permanece mesmo quando
sua finalidade primordial já foi cumprida, crianças
adoram correr e pular, jovens divertem-se testando os limites
de aceleração de carros, e até os mais
pacatos idosos curtem a cadeira de balanço.
CHOCOLATE
A neurociência também explica por que o chocolate
é tão irresistível. Entre seus mais de
350 compostos conhecidos, há pelo menos três grupos
que falam diretamente a nossos órgãos de prazer.
O mais famoso é a sucrose, que não é mais
que o bom e velho açúcar. Algumas gotinhas bastam
para acalmar um bebê chorão. Elas ativam o sistema
opioide do cérebro, que regula a resposta do corpo ao
estresse.
Além da sucrose, o chocolate contém teobromina
(um estimulante leve) e feniletilamina, quimicamente similar
à anfetamina. Uma vez no cérebro, elas ativam
os sistemas da dopamina e da noradrenalina, ligados à
atenção e à excitação.
Por fim, o terceiro grupo traz a anandamina, que ativa os mesmos
receptores do THC - tetraidrocanabinol, o princípio ativo
da maconha-, e mais duas moléculas, que fazem com que
seu efeito perdure por mais tempo.
O chocolate seria, assim, uma improvável combinação
de morfina, anfetamina e maconha no mesmo produto. Difícil
resistir. A comparação só não é
exata porque as drogas ilícitas ou controladas produzem
versões potencializadas do "barato".
VÍCIO
Isso nos leva ao lado negro do prazer, que é
o vício. De acordo com Wallenstein, recentes pesquisas
em neurociência mostram que, além do sistema da
dopamina, existem pelo menos três outros que estão
ligados ao prazer. Mais importante, os circuitos neuronais responsáveis
pelo querer e pelo gostar funcionam de forma independente. É
o que explica, por exemplo, por que dependentes fazem de tudo
para obter sua ração diária de droga, mesmo
afirmando que não gostam tanto como nas primeiras utilizações.
É o que explica, também, por que é possível
tornar-se viciado em produtos como o cigarro, intragáveis
para quem experimenta pela primeira vez.
Conhecer melhor os mecanismos da dependência, além
de indicar alvos para o desenvolvimento de novos fármacos,
também pode levar à revisão de algumas
estratégias terapêuticas.
Wallenstein sugere que pode ser contraproducente abordar uma
droga de cada vez -alcoólatras que buscam tratamento
para a dependência de álcool e são também
fumantes raramente recebem incentivo para abandonar o cigarro
ao mesmo tempo. Todas as drogas, afinal, excitam os mesmos centros
de recompensa. Tentar parar de beber sem parar de fumar seria
como prescrever um tratamento que incluísse pequenas
doses de álcool. Se esse modelo é exato, as terapias
de substituição não fariam sentido.
O vício é o mais evidente dos curtos-circuitos
do prazer, mas está longe de ser o único. Racismo,
estupro de virgens e intolerância religiosa seriam outros
desvios comuns, na interpretação de Paul Bloom,
autor do esperado "How Pleasure Works - The New Science
of Why We Like What We Like " [Como o Prazer Funciona -
A Nova Ciência de Por Que Gostamos Daquilo de que Gostamos.
W. W. Norton, 280 págs., US$ 26,95, R$ 49].
Nem todos os prazeres, porém, têm valor adaptativo.
Sobretudo no mundo moderno, eles surgem como subproduto de preferências
que foram importantes no passado humano ou no desenvolvimento
de cada indivíduo.
É o caso do café. Não dá para dizer
que gostamos de café porque caçadores-coletores
que bebiam essa infusão obtiveram uma vantagem sobre
os que não a ingeriam. O café é apreciado
porque é uma droga estimulante, e nós gostamos
de ser estimulados.
ESSENCIALISMO
Para Bloom, estrela em ascensão da Universidade Yale,
seres humanos têm uma visão essencialista do mundo;
quando ela interage com o prazer, pode gerar subprodutos indesejáveis.
O essencialismo, compreendido como a noção de
que as coisas têm uma natureza oculta que as define, não
é em si um mal. Ao contrário, ele nos leva a ser
observadores detalhistas, que tentam ler em pistas externas
a verdadeira essência dos objetos. Isso tende a favorecer
a sobrevivência.
A questão é que muitas vezes o essencialismo produz
confusão. Experimentos conduzidos pelo psicólogo
social Henri Tajfel mostram que, ao dividir pessoas em dois
grupos por critérios arbitrários (cara ou coroa,
por exemplo), os indivíduos não apenas favorecem
a facção em que ficaram -o que seria compreensível
do ponto de vista dos prazeres sociais- como acreditam que há
diferenças significativas entre as duas.
Se as características externas são mais ou menos
óbvias, como a cor da pele ou o formato do rosto, são
elas que despontam como relevantes e, portanto, "essenciais".
Pronto: está criado o embrião do racismo e, "mutatis
mutandis", da intolerância religiosa.
Existem exemplos mais divertidos do essencialismo. O que pensamos
acerca de nossos alimentos altera, às vezes profundamente,
a forma como os apreciamos. Num experimento com especialistas,
o mesmo vinho foi rotulado como "grand cru" (de alta
qualidade) ou "vin de table" (ordinário). A
avaliação mudava conforme o rótulo. Se
você está prestes a concluir que a crítica
enológica é uma fraude, ainda não viu nada.
Numa outra simulação, experts foram induzidos
a confundir vinho branco com tinto. Bastou uma mentirinha e
um copo escuro.
As coisas podem ficar ainda piores para os defensores da objetividade
do paladar. Com a crença errada, como demonstrou outro
teste, somos capazes de nos deleitar com comida de cachorro
como se fosse patê de "foie gras".
Outra característica interessante -e positiva- do essencialismo
é que ele nos permite apreciar a ficção
e aprender com ela. Ao contrário da maioria dos animais,
temos a capacidade de antecipar sensações e extrair
prazer (ou sofrimento) dessa antevisão. Isso nos treina
a distinguir ficção de realidade, o que abre toda
uma avenida de novos prazeres.
Em primeiro lugar, ganhamos a possibilidade de "viver"
situações ficcionais. A experiência pode
não ser tão intensa como na realidade; embora
isso atenue as sensações, também nos preserva
dos perigos. Assistir no cinema a alguém sendo devorado
por tubarões é mais seguro do que presenciar a
cena "in loco".
Essa simulação segura é, em geral, uma
boa oportunidade de aprendizado, seja para lidar com as próprias
emoções, seja para adestrar-se numa atividade
relevante. No mundo animal, as brigas de brincadeira entre filhotes
são uma forma de aprendizado para a luta -sem o risco
de ferimentos. A literatura está salva e "Crime
e Castigo" vale por um tratado de psiquiatria.
Ainda mais curioso, de acordo com Bloom, o fato de jogarmos
mentalmente com o binômio segurança-emoção
nos torna capazes de extrair prazer de sensações
desagradáveis, como a queda livre da montanha-russa e
o filme de terror. Esse comportamento pode prolongar-se para
fora da ficção, desde que numa situação
que saibamos ser controlada. É o que explica a nossa
curiosidade diante de acidentes de carro, comidas condimentadas
-o ser humano é o único animal que aprecia Tabasco,
assevera Bloom- e até o masoquismo.
FETICHES
E, se o assunto é sexo, esse é um terreno
fértil para nossas projeções essencialistas.
Num experimento com perus selvagens, os pesquisadores tentaram
identificar qual a "unidade mínima" de perua
que os excitaria.
Para isso, foram testando a resposta dos machos a manequins
de peruas, das quais iam retirando cauda, pés, asas etc.
Descobriram que bastava espetar uma cabeça num pau para
despertar o vigor nos machos. Na verdade, os perus preferiam
a cabeça sozinha a um corpo acéfalo. Eis aí
um modelo para o fetichismo.
No caso dos humanos, o fetiche mais frequente é por pés.
Há uma explicação neurológica para
isso. A área do cérebro que processa as informações
táteis da genitália é vizinha à
responsável pelos pés, ao alcance de apenas algumas
sinapses extras.
A tara por virgens também resulta de uma visão
essencialista, desta vez moldada pela seleção
sexual. Desde que a espécie humana perdeu o estro, ficou
muito mais difícil para o macho ter certeza de quem são
seus filhos (se as mulheres fossem férteis apenas num
período do ano, bastaria vigiá-las de perto nesse
intervalo).
Antes da pílula e da inseminação artificial,
a melhor garantia de não estar criando filhos alheios
(o pior pesadelo darwiniano) era relacionar-se com uma virgem.
O hábito, que ainda evoca ideias como as de pureza e
inocência, ficou e estendeu-se para outras áreas,
gerando comportamentos moralmente indefensáveis como
a pedofilia, o estupro de virgens com vistas a curar doenças
e os crimes "em defesa da honra".
ÉTICA
No fundo, tinha razão Epicuro (341 a.C.-270 a.C.), um
dos primeiros filósofos hedonistas. Sem rejeitar o prazer,
ele percebeu a necessidade de enquadrá-lo dentro de uma
ética. Poderíamos até dividir a história
da filosofia em sistemas ou autores que nutrem simpatia pelos
apetites naturais (hedonismo, empirismo, Diderot, utilitarismo)
e aqueles que os denunciam como fonte dos males humanos (estoicismo,
santo Agostinho).
O que a incipiente ciência hedônica sugere é
que o prazer, mais do que um impulso a ser disciplinado, é
uma das principais forças que dirige a formação
do cérebro e que nos confere o gosto pela vida. Compreender
os caminhos por vezes estranhos a que ele nos conduz é
o primeiro passo para uma nova ética do prazer, que nos
permita evitar suas armadilhas e utilizá-lo para tornar
mais eficientes práticas como a educação
e tratamentos de doenças.