Substituição de
contratos: Flexibilização trabalhista não
reduz desemprego
(*)
Joaquin Aparício Tovar
Os grandes problemas vivenciados atualmente pela sociedade espanhola
são o desemprego e a alta taxa de temporariedade dos
contratos de trabalho. Quanto a isto não parece que existir
muitas discrepâncias. O desemprego massivo tem sido uma
constante em uma grande parte do desenvolvimento capitalista.
Tanto nos inícios da revolução industrial,
quando não existia direito do trabalho, como posteriormente,
os empresários sempre contaram com o “exército
industrial de reserva” a assegurar que o mercado de trabalho
seja favorável aos compradores da força de trabalho.
O drama das duas guerras mundiais no século XX e o ascenso
dos fascismos (para o qual contribuiu o desemprego) estenderam
a toda Europa a firme convicção de que eram necessárias
grandes reformas sociais que, entre outras coisas, alterassem
esse estado de coisas para construir um mercado de trabalho
favorável aos vendedores da força de trabalho
por intermédio do pleno emprego. Não é
uma utopia. O pleno emprego foi uma realidade que se conseguiu
com o desenvolvimento do estado social. Na Espanha franquista,
onde nunca houve estado social, nunca se alcançou o pleno
emprego. As mulheres apartadas do trabalho e os emigrantes demonstravam
esta realidade. A recuperação das liberdades coincidiu
com uma situação econômica de crise e o
aumento do desemprego, razão pela qual o constituinte
de 1978, consciente de que as instituições livres
perigam quando volta o desemprego massivo (Beveridge), impôs
aos poderes públicos a obrigação de orientar
sua política econômica ao pleno emprego.
A
partir dos finais dos anos 70 do século passado, em enorme
“crescendo” que hoje aturde, desde distintas sedes
internacionais reguladoras dos movimentos econômicos (FMI,
Banco Mundial, e agora Comissão Europeia) e de outros
centros de criação da doutrina neoliberal, se
difundiu a idéia que culpabiliza o direito do trabalho
pelo aumento do desemprego. A experiência espanhola é
ilustrativa. As exposições de motivos das leis
reformadoras do Estatuto dos Trabalhadores que foram promulgadas
desde os anos 80, justificavam a eliminação da
causalidade (para as necessidades permanentes das empresas,
contratos indefinidos; para as necessidades temporárias,
contratos por tempo determinado) objetivando fomentar a contração
de pessoas em desemprego involuntário. Supunha-se que
as facilidades para contratação temporária
dariam lugar a uma redução do desemprego. Outras
muitas reformas flexibilizadoras se produziram desde aqueles
tempos em matérias tais como mobilidade geográfica
e funcional, jornada, salários, e também em relação
às dispensas de empregados. Tudo isso conduziu a que
os poderes dos empresários frente aos trabalhadores tenham
aumentado consideravelmente e, apesar disso, vemos que o desemprego
não foi reduzido: só se substituíram contratos
indefinidos por contratos temporários com perniciosas
conseqüências.
Em
verdade a situação mais próxima ao pleno
emprego na Espanha teve lugar quando em decorrência do
acordo entre sindicatos e associações de empresários
me 1997 se retornou no direito espanhol à preferência
pelo contrato por prazo indeterminado e se recuperou a causalidade
na contratação. Apesar deste acordo, contudo,
em face da fraude à lei e do abuso na descentralização
produtiva, a natureza da atividade produtiva na Espanha (grande
desenvolvimento da bolha imobiliária residencial) não
se produziu redução significativa na temporariedade
e da precariedade. De tudo isso se pode extrair a conclusão
de que a norma laboral tem pouca incidência na maior ou
menor taxa de desemprego. São outros fatores os determinantes.
Contudo,
nem da história, nem do direito, nem da sociologia os
economistas liberais dos grandes organismos econômicos
aprenderam coisa alguma. São muito desmemoriados. Um
bom exemplo ofereceu o “Seminário de Alto Nível”
organizado no Banco de España e o Fundo Monetário
Internacional, em Madri, neste mês de maio de 2010. A
intervenção de uma representante de FMI, “expert”
no caso espanhol, pode ser tomada como paradigmática.
Colocou uma série de dados de distintos países
ordenados em quadros segundo ordenadas e abscissas, para extrair
conclusões “científicas” segundo as
quais o desemprego alto na Espanha se devia à alta cobertura
da negociação coletiva, à sua estrutura,
ao seu caráter normativo que torna muito difícil
o uso das cláusulas opt-out, ao excesso de proteção
contra a despedida, à generosidade das prestações
por desemprego e às cotizações sobre os
salários. O que chama a atenção é
que a partir da mera acumulação de concretos dados
estatísticos de distintos países, comparados sem
outras conexões, se atrevesse a especialista a formular
relações de causa-efeito. Esta postura repugna
ao mais elementar rigor. Um físico ou um matemático
nem sequer levaria este estudo em consideração;
um cientista social se escandaliza porque a complexidade das
ciências sociais obriga a uma especial prudência
já que as conseqüências podem ser trágicas
para muita gente, pois, obviamente, tais conclusões “cientificas”
de imediato se convertem em proposições normativas
bem conhecidas que se resumem na palavra desregulação
que já acreditávamos desgastada.
Segundo
estes doutrinadores liberais, se adotadas suas recomendações
(sua amnésia os faz olvidar que já fizeram essas
mesmas recomendações e que as já foram
aplicadas nos anos 90 na iberoamérica com desastrosas
conseqüências), os empregos cresceriam como os cogumelos
em um bom outono. Por quê? Não aportam provas cientificas.
Há que crer que assim será, apesar das evidencia
em contrario aportadas pela história. Ou seja, depois
de tantas abscissas e ordenadas tudo se resolve em uma questão
de fé que como se sabe remove montanhas. Já nos
ensinou o grande Augusto Monterroso, em conhecido micro-conto:
quando as pessoas eram crédulas a fé gerava mais
problemas que resolvia, pois cada dia as montanhas, os rios,
as estradas mudavam de lugar, até que as pessoas houveram
por bem deixar de acreditar. Por isso quando há um terremoto
ou uma queda de barreiras sobre alguma estrada significa que
alguém teve um pressentimento fundado na fé, de
modo que é melhor não termos, neste caso, vista
das consequências.
La
fé y las montañas, por Augusto Monterroso.
Al
principio la fe movía montañas sólo cuando
era absolutamente necesario, con lo que el paisaje permanecía
igual a sí mismo durante milenios. Pero cuando la fe
comenzó a propagarse y a la gente le pareció divertida
la idea de mover montañas, éstas no hacían
sino cambiar de sitio, y cada vez era más difícil
encontrarlas en el lugar en que uno las había dejado
la noche anterior; cosa que por supuesto creaba más dificultades
que las que resolvía. La buena gente prefirió
entonces abandonar la fe y ahora las montañas permanecen
por lo general en su sitio. Cuando en la carretera se produce
un derrumbe bajo el cual mueren varios viajeros, es que alguien,
muy lejano o inmediato, tuvo un ligerísimo atisbo de
fe.
(*) Joaquin Aparício é Catedrático de Direito
do Trabalho na Universidade de Castilla-La Mancha, na Espanha.
Revista Consultor Jurídico, 12 de junho de 2010