SISTEMA
MUTILANTE: As máquinas tem que se ajustar ao homem e
não o trabalhador às ferramentas da produção
(*) Luiz Salvador
O Jornal
o Estado do Paraná, edição de 8 de junho,
traz reportagem informando que os "acidentes de trabalho
aumentaram em 52% no Paraná". O quadro da tragédia
é desolador. Temos uma das melhores legislações
de infortunística do mundo, mas sem efetividade por uma
cultura equivocada de que investir em prevenção
é custo e não, investimento que é. Falta
vontade política para que esse quadro de tragédia
tenha fim.
É
de todos sabido que 80% dos acidentes de trabalho não
são comunicados à Previdência, apesar de
tal comunicação ser obrigatória a teor
do disposto no art.22 da Lei 8.213/91 que prevê que todo
acidente de trabalho ou doença profissional deverá
ser comunicado pela empresa ao INSS até o primeiro útil
seguinte ao da ocorrência e, de imediato, em caso de morte,
sob pena de multa variável entre o limite mínimo
e o limite máximo do salário-de-contribuição,
sucessivamente aumentada nas reincidências, aplicada e
cobrada pela Previdência Social.
Mesmo após
a vigência do NTEP (NEXO TÉCNICO EPIDEMIOLÓGICO
PREVIDENCIÁRIO) criado pela Lei nº 11.430, de 26
de dezembro 2006, permitindo ao INSS o reconhecimento acidentário
pelo critério objetivo, a obrigação do
empregador de emitir a CAT permanece, a teor do disposto na
IN 16 e reafirmada pela IN31, que dispõe:
"Art.
14. A dispensa de vinculação do benefício
a uma CAT no Sistema Único de Benefícios, para
a sua concessão em espécie acidentária,
não desobriga a empresa da emissão da mesma, conforme
previsto nos arts. 19 a 23 da Lei nº 8.213/91".
Como decorrência
do descumprimento reiterado das normas de segurança e
proteção prevista em nossa legislação
infortunística, o Brasil tem sido considerado "Campeão
Mundial em Acidentes do Trabalho", descumprindo-se o direito
fundamental de prevalência do direito à vida saudável
e o dever do empregador por assegurar ao seu empregado meio
ambiente equilibrado, livre de riscos de acidentes e ou adoecimentos
ocupacionais.
A situação
se agrava pelo uso desregrado das terceirizações/quarterizações,
onde o quadro da tragédia é ainda maior, por decorrência
do modelo econômico neoliberal mundialmente globalizado,
que na perseguição do lucro fácil e a qualquer
custo e sem responsabilidade social, o capitalismo tem se servido
constantemente de formas criativas e com disfarces múltiplos,
para tanto introduzindo inovações na forma da
produção e organização empresarial,
permitindo-se a expansão encadeada de novas possibilidades
de redução dos custos da produção,
com a precarização laboral, numa série
infinda de formas atípicas de trabalho, como tele-trabalho,
trabalho em tempo parcial [part-time], trabalho à distância;
trabalho on-call...
O
quadro da tragédia persiste, apesar das garantias legais
à proteção ao direito à vida e à
dignidade da pessoa humana, sendo os números alarmentes
de acidentes do trabalho no Brasil, conforme noticia a própria
OIT: "todos os anos morrem no mundo mais de 1,1 milhão
de pessoas, vítimas de acidentes ou de doenças
relacionadas ao trabalho. Esse número é maior
que a média anual de mortes no trânsito (999 mil),
as provocadas por violência (563 mil) e por guerras (50
mil)", sendo de se esclarecer que no Brasil, os números
continuam alarmantes. Os 393,6 mil acidentes de trabalho verificados
em 1999 tiveram como conseqüência 3,6 mil óbitos
e 16,3 mil incapacidades permanentes. De cada 10 mil acidentes
de trabalho, 100,5 são fatais, enquanto em países
como México e EUA este contingente é de 36,6 e
21,6, respectivamente.
Leia
a reportagem do Jornal O Estado do Paraná, Edição
de 8 de junho de 2010:
Acidentes de trabalho aumentam 52% no Estado
Mara Andrich
Entre 2006
e 2008, o Paraná registrou um aumento de 52% no número
de acidentes de trabalho. Em 2006 foram contabilizados no estado
37.574 acidentes, e em 2008, 57.057.
O incremento
é maior do que o registrado em âmbito nacional,
cujo aumento foi de 46%. Na próxima quinta-feira inicia
em Curitiba um evento que irá discutir o problema, o
PrevenSul Paraná 13.ª Feira de Saúde, que
será realizado no Expo Unimed, das 13h às 21h,
com entrada gratuita. O evento segue até sábado.
De acordo
o coordenador do PrevenSul e editor do Anuário Brasileiro
e da revista Proteção, Alexandre Gusmão,
vários fatores explicam o aumento no número de
registros de acidentes de trabalho.
O principal,
segundo ele, é a diminuição considerável
da subnotificação, que ocorreu após a implantação
do Nexo-Técnico Epidemiológico (NTEP) por parte
da Previdência Social.
Esta forma
de registro, que está sendo desenvolvida desde 2007,
permite que o próprio Instituto Nacional de Seguridade
Social (INSS) verifique se há ou não altos índices
de determinada doença em algum setor.
Desta forma,
não é necessário que a ocorrência
seja registrada por meio da Comunicação de Acidente
de Trabalho (CAT), o qual deveria ser feito pelas empresas.
Outra vantagem é que o INSS passou a notificar as doenças
do trabalho também, o que não ocorria antes.
Para se
ter uma ideia, antes do NTEP começar a funcionar (de
março de 2006 a março de 2007), 5,9% dos benefícios
concedidos pelo INSS em Curitiba eram acidentários.
Depois que
o NTEP passou a funcionar, o índice de benefícios
acidentários aumentou para 13,99% do total, um incremento
de 137,1%. A chefe-substituta do Serviço de Saúde
do Trabalhador da Gerência do INSS em Curitiba, Denise
Nogueira, explica que o novo sistema facilitou muito, tanto
para o INSS, como para o trabalhador.
"Inverteu
o ônus da prova. Agora é a empresa que tem que
provar que o segurado tem ou não direito ao seguro. Foi
um avanço muito grande", analisa a médica,
que acredita que não tem aumentado o número de
notificações, mas sim, com o NTEP, diminuiu a
subnotificação das CATs.
Porém,
para Gusmão, não é somente a subnotificação
que explica o aumento no número de acidentes. Segundo
ele, a falta de informação, tanto do empregador
quanto do empregado, causa acidentes de trabalho.
"Temos
a retomada da economia, que causou o crescimento na quantidade
de trabalhadores e, consequentemente, mais acidentes de trabalho;
e ainda a falta de qualificação e experiência",
analisou.
O evento
que inicia na próxima quinta-feira tem justamente esse
objetivo: repassar informações aos empregadores
e sindicatos sobre a questão. Estão sendo esperados
cerca de dez mil profissionais para a PrevenSul, e um público
de pelo menos 4 mil pessoas. Mais informações
pelo site www.prevensul.com.br.
Setores
O setor
industrial ainda se mantém como o que mais registra acidentes
de trabalho. Segundo dados da Previdência Social, de 2000
a 2008, 130.997 trabalhadores foram vítimas de acidentes
na indústria da transformação no Paraná.
O setor
é campeão em registros, mas é também
o que mais emprega. Em 2008, atuavam na área 576.695
pessoas, ano em que foram registrados 23.876 acidentes de trabalho.
O setor
de águas, esgotos e resíduos também registrou
grande número de acidentes de trabalho no estado, em
2008: foram 1.669 acidentes, sendo que o setor gera cerca de
15 mil empregos no estado.
(*) Luiz
Salvador é Presidente da ABRAT (www.abrat.adv.br), Presidente
da ALAL (www.alal.la), Representante Brasileiro no Depto. de
Saúde do Trabalhador da JUTRA (www.jutra.org), assessor
jurídico da AEPETRO e da ATIVA, membro integrante do
corpo técnico do Diap e Secretário Geral da CNDS
do Conselho Federal da OAB, e-mail: luizsalv@terra.com.br, site:
www.defesadotrabalhador.com.br