Trabalho
escravo: ervateira de Irineópolis firma acordo com MPT/SC
Depois de ser autuada por fiscais do Ministério do Trabalho
e Emprego no dia 12 de maio, quando foram resgatados 12 trabalhadores
em condições similares a de trabalho escravo,
a ervateira Parra, com sede em Irineópolis, aceitou o
acordo proposto pelo Ministério Público do Trabalho
em Santa Catarina. Fiscalização do trabalho rural
encontrou os agricultores alojados num chiqueiro “desativado”,
em Ipumirim (foto).
No Termo
de Ajustamento de Conduta (TAC) proposto pelo procurador do
Trabalho Guilherme Kirtsching, o proprietário da Ervateira
Parra, Eraldo Luiz Parra, se comprometeu a reconhecer o vínculo
empregatício referente aos dois meses em que os trabalhadores
colheram erva mate em diversas propriedades, com o pagamento
dos direitos trabalhistas e sociais, e R$ 500,00 a cada um por
danos morais. “Ficou comprovado que a erva mate colhida
era comprada pela Parra”, afirmou o procurador. O proprietário
das terras onde os trabalhadores estavam alojados no “chiqueiro
desativado”, Odolir Canton, vai pagar, a titulo de indenização,
R$ 10 mil em materiais para a Delegacia de Polícia de
Ipumirim.
Conforme
a auditora fiscal do Trabalho, Lílian Resende, os trabalhadores
eram trazidos de União da Vitória (PR), cidade
distante cera de três horas de Ipumirim, onde foram encontrados
alojados num chiqueiro. Eles eram transportados nas caçambas
dos caminhões de erva mate. “O local do alojamento,
um chiqueiro de porcos” desativado, abrigava os trabalhadores
em suas baias, que dividiam espaço com os cavalos usados
no arraste dos “raídos” de erva-mate”,
conta a auditora. O “alojamento” era aberto e devassado,
tinha muitas fezes de animais e ratos mortos. Os trabalhadores
relataram que tiveram que improvisar ripas para colocar seus
colchões porque a chuva escorria pelo chão.
Para agravar
a situação degradante, nesta época do ano
a região apresenta temperaturas bastante baixas, sendo
que na noite anterior à fiscalização a
temperatura mínima ficou em torno dos 10 graus. Entre
os trabalhadores, os fiscais encontraram um adolescente de 15
anos, que declarou prestar serviços ao “empreiteiro
de mão-de-obra” há cerca de dois anos. Mensalmente,
segundo contou o adolescente, recebia líquido um total
de R$ 200,00. O gasto com alimentos no mercado era descontado
dos trabalhadores. O adolescente afirmou ainda que, na saída
de União da Vitória, há um mês e
meio, assumiu uma dívida com o“rancho” que
o empreiteiro fez para sua avó, com quem o menor vive.
“Ele próprio fazia as duas refeições,
de forma improvisada e num fogareiro improvisado, que comia
num dia. Com uma jornada de trabalho que começava às
7 horas da manhã se estendendo até às 19
horas, o cansaço não permitia mais uma refeição”,
salienta Lílian.
Ainda segundo o relato da auditora, os trabalhadores faziam
suas necessidades no mato e tomavam banho no rio. A única
mulher do grupo declarou que esperava anoitecer e ia sozinha,
pelo mato, até o rio para banhar-se. O terreno onde fica
o “chiqueirão” pertence a conhecida família
da cidade, que também utilizou a mão-de-obra destes
trabalhadores. Como a erva foi vendida “no pé”,
conforme declararam vários proprietários de terra,
fato confirmado pelos comprovantes de depósitos bancários
de pagamento da ervateira, a responsabilização
trabalhista recaiu sobre a Parra. A responsabilização
civil e criminal será imputada a todos os envolvidos.
O “empreiteiro” (gato) foi preso em flagrante delito
e conduzido ao presídio mais próximo.