Direito
à saúde: entre os planos e a universalização
do SUS
Raquel Júnia *
Adital - www.adital.com.br
A
Caixa Econômica Federal está realizando estudos
para oferecer planos de saúde à população
de baixa renda. Embora, segundo a Assessoria de Comunicação
do banco, ainda esteja no campo das intenções,
sem nenhuma possibilidade concreta, esse ‘projeto' retoma
a discussão sobre os investimentos na universalidade
do SUS. Para Gastão Wagner, médico e professor
da Unicamp, essa e muitas outras ações, como os
planos de saúde de servidores públicos, mostram
que o país precisa debater se de fato quer ter uma cobertura
de saúde pública universal, como existe em outros
países. E completa: "Há a ideia equivocada
de que o SUS é um plano para pobre ou para ações
estratégicas de alta complexidade", diz.
A Agência
Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que é responsável
pela regulamentação dos planos de saúde,
divulgou que o setor faturou em 2009, R$ 63 milhões.
A cobertura aumentou 4,9%, índice mais baixo, entretanto,
que em 2008, quando foi verificado um aumento de 5,4%.
Para Gastão,
a expansão dos planos de saúde revela a falta
de políticas públicas para transformar o SUS,
de fato, em um sistema universal. "As autoridades, até
o momento, falam nos discursos que apóiam o SUS, mas
na prática não vejo esforços efetivos.
O que vemos é um subfinanciamento, uma política
de pessoal muito ruim, expansão muito heterogênea.
O SUS está na lei, mas não se consegue implementá-lo.
Nenhum presidente até hoje assumiu a defesa do SUS",
critica. O professor lembra que o próprio presidente
Lula, no discurso de posse em 2003, declarou que ao final de
seu mandato todos teriam um plano de saúde. "O SUS
não ganhou a classe média e nem os trabalhadores,
que nunca o apoiaram de fato. Sempre colocam na negociação
coletiva a questão do plano de saúde. Não
houve um momento em que o país debateu essa questão",
opina.
A médica
e professora Ligia Bahia, do Laboratório de Economia
da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também
aponta a contradição existente nas políticas
públicas do país com relação à
saúde. Para ela, não é possível
que saúde privada e pública coexistam com investimento
público. "Se nós estamos tornando o fluxo
de recursos muito mais favorável para subsidiar plano
de saúde fica difícil encontrar recursos para
financiar o SUS, porque na realidade são as mesmas fontes.
Nenhuma sociedade tem um grande sistema público e um
grande sistema privado financiados com recursos públicos",
observa.
Ela lembra
o projeto de lei 194/2009, de autoria do Senador César
Borges (PR-BA), já aprovado no Senado e enviado para
tramitação na Câmara dos Deputados, que
propõe a dedução fiscal do imposto de renda
para os patrões que pagarem planos de saúde aos
empregados domésticos. Para ela, políticas como
esta, que estratificam o atendimento, já que empregados
domésticos terão um plano muito pior do que os
patrões, impedem a efetivação do direito
universal ao SUS. "É uma proposta completamente
diferente do sistema universal no qual as pessoas não
são discriminadas em função da maior ou
menor capacidade de pagamento", assegura.
Como
funciona em outros países
O professor-pesquisador
da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz,
Gustavo Matta, explica que atualmente, em todo o mundo, três
países possuem um sistema de saúde com a perspectiva
do atendimento universal como um direito - Reino Unido, Canadá
e Cuba. "Essas experiências acontecem de forma igual
ao Brasil, o que não significa que não exista
medicina privada na Inglaterra, mas é completamente residual,
só para determinados serviços que o sistema de
saúde não cobriria. Por exemplo, uma cirurgia
plástica que não é restauradora, mas estética",
pontua.
O professor
relata que no caso do Reino Unido e Canadá, é
permitida a existência do sistema privado, mas que em
nenhum dos dois casos ela é tão sistemática
quanto no Brasil. Isso sem considerar a prestação
de serviço para o setor público, como acontece
também aqui, mas sem que signifique custo para a população.
Gustavo
lembra que na Assembléia Nacional Constituinte de 1988
houve um impasse quando se discutiu se o SUS deveria ser complementado
pelo privado ou não."Mas no jogo de forças
e no acerto para que se fizesse avançar o texto constitucional
essas emendas [de complementação do sistema público
pelo privado] passaram. Então, se alterou inclusive o
projeto original, que era o da 8ª Conferência Nacional
de Saúde, de 1986", recorda.
Reverter
a privatização
Ainda sobre
os sistemas de saúde na Europa, Gustavo Matta conta que
após a reforma Tatcher [implementada pela primeira ministra
britânica Margaret Tatcher] alguns serviços de
saúde que antes eram públicos foram privatizados,
em função da política neoliberal. Entretanto,
o modelo privatizante não ganhou força. "O
sistema de proteção do Reino Unido era tão
forte que ela [Margaret Tatcher] não conseguiu nem fazer
cosquinha. A sociedade britânica tinha uma grande identidade
com o sistema de saúde e se sentia protegida por ele".
No caso
do Brasil, Matta afirma que uma grande dificuldade é
que as pessoas não se sentem protegidas pelo SUS. "Qual
é a confiança que nossos usuários de SUS
têm de serem imediatamente atendidos em suas necessidades?
Nas grandes metrópoles isso é praticamente inexistente,
você vai encontrar filas, falta de pessoal, marcação
de consulta com senhas, necessidade de se chegar de madrugada",
reflete.
Ligia Bahia
destaca que o Brasil está caminhando no sentido inverso
ao dos Estados Unidos, que, com a recente proposta de reforma
da saúde, tenta reverter a grande participação
dos planos e incrementar o sistema público. "A reforma
Obama se baseou nos problemas de negação de cobertura
dos planos de saúde. Porque não basta ter o plano:
é só ver o que acontece nos EUA, que é
o país com o maior consumo de planos do mundo. Há
uma ideia completamente errônea de que este tipo de consumo
significa boa saúde", afirma.
Para a professora,
a existência de planos de saúde é uma "proposta
atrasada do ponto de vista da modernidade". E, inclusive,
já foi rechaçada por muitos países capitalistas
por eles entenderem que a saúde é um campo complexo,
no qual é preciso que o Estado atue fortemente na regulação
tanto do lado da demanda quanto do lado da oferta.
Ligia acrescenta
que é preciso que os profissionais da saúde e
pessoas envolvidas com o tema sejam mais veementes na defesa
do sistema público e contra os planos, para que a saúde
não seja encarada como mais um bem de consumo. E convida
à reflexão sobre o modelo consumista que reforça
a existência de classes sociais: "Os trabalhadores
são consentidores passivos desta agenda da transformação
dos brasileiros em consumidores de baixo impacto. São
consumidores de geladeira, de automóveis, de planos de
saúde baratos...É importante que o poder de consumo
aumente. Mas de qual consumo estamos falando? Do relacionado
a melhores condições de saúde ou daquele
relacionado à inserção do Brasil como apêndice
periférico da economia mundial? Para onde esse modelo
nos leva? Vamos ter um país que é poluído,
onde as pessoas compram geladeiras, mas não têm
lazer, um país que continua com altíssimos índices
de violência e uma imensa desigualdade", conclui.
* Escola Politécnica de Saúde Joaquim
Venâncio (EPSJV), Fiocruz