A FARSA DA SAÚDE DO HOMEM NO CEREST-CE

Fonte: MOVA-SE

Em ano de eleição, até o Centro de Referência à Saúde do Trabalhador (CEREST) se transforma em posto de saúde. Contrariando orientação da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST) de se restringir às doenças trabalhistas, o CEREST implantou recentemente o atendimento à saúde do homem. Esse novo serviço permite “furar a fila” do posto de saúde, porta de entrada do SUS. Trata-se de um atendimento com pouca ou nenhuma resolutividade já que acaba aí. As pessoas atendidas lá não podem ser encaminhadas para outras consultas e exames do SUS – que exige o encaminhamento de um posto de saúde.

Por meio de manobra, parte das consultas do SUS destinadas ao Hospital Cesar Cals vêm sendo repassadas ao CEREST. Trata-se de uma irregularidade que vem acontecendo sem o conhecimento dos órgãos superiores e que, além de não melhorar o acolhimento à população, não se sustenta por muito tempo pois logo haverá filas de espera e senhas de atendimento.

Na verdade, é o que já está acontecendo. Quem passa ao meio dia pelo CEREST constata um fila se formando para o atendimento da Saúde do Homem, que começa às 17 horas. Há estrutura no CEREST para essa demanda? Evidentemente que não, então o que está ocorrendo de fato é simplesmente uma quebra na ordem de atendimento do SUS com objetivos eleitoreiros.

A quem interessa transformar o CEREST em posto de saúde?

Fazer saúde do homem não é fazer saúde do trabalhador. Este último tem natureza diversa, foco e estratégias diferenciados. Câncer de próstata, por exemplo, não é, em princípio uma doença ocupacional, desenvolvida devido às condições de trabalho.

A Saúde do Trabalhador é um programa federal com verba enviada aos CERESTs para estruturar rede específica. São enquadradas no rol das doenças laborativas: acidentes de trabalho e doenças relacionadas ao trabalho, tais como lesões por esforços repetitivos, dermatoses ocupacionais, perda auditiva induzida por ruído, transtornos mentais relacionados ao trabalho, pneumoconioses, etc. – todas adquiridas por exposição a riscos no ambiente de trabalho. Usar a verba da RENAST para outros fins é desvio de verba. Utilizar a estrutura do CEREST para outros fins é desvio de função. Na Saúde do Homem, um médico recebe R$ 4.000,00 de gratificação para trabalhar 20 horas semanais e um enfermeiro(a) recebe R$ 1.500,00. E de onde sai o pagamento desses profissionais? Da verba destinada à Saúde do Trabalhador.

Não é possível uma unidade de média complexidade como o CEREST fazer atendimento de atenção básica, pois o usuário não tem como entrar na rede. O que pode ocorrer são intervenções fora da rede, que não têm sustentação. A ampliação do atendimento não vai suprir a necessidade de atendimento ao homem já que estes representam a metade da população do estado. Portanto a porta de entrada devem ser os postos. Abrir o atendimento para a mulher é tornar o erro ainda maior.

Cabe ao Estado organizar serviços mais estruturados de média e alta complexidade para atender às demandas do homem e da mulher.