Assassinato
de líder comunitário mobiliza movimentos no Ceará
Durante
missa de sétimo dia, movimentos comprometeram-se a seguir
a luta de José Maria Filho
Em vez do silêncio, o canto. Canto embargado pela dor
e pelo cansaço, mas fortalecido pelas muitas vozes que
se juntaram às dos trabalhadores e trabalhadoras sem
terra. Ali, em meio ao acampamento do MST, em frente à
sede Incra no Ceará, centenas de integrantes de movimentos
sociais reuniram-se para homenagear o agricultor e líder
comunitário José Maria, na data que marcava a
passagem do sétimo dia de seu assassinato, no Sítio
Tomé, localizado em Limoeiro do Norte, na divisa com
o município de Quixeré, na Chapada do Apodi, interior
do estado.
De mãos
dadas, os participantes da celebração pactuaram:
“nós decidimos. De agora em diante, temeremos mais
a miséria do que a morte”. Com tal força,
ressoaram as vozes, que do medo fez-se a confiança; da
dor pela perda, a coragem para seguir na luta. Afinal, como
lembraram o coro e os acordes dos violeiros, “não
precisa ser herói para lutar pela terra, pois, quando
a fome dói, qualquer homem entra em guerra”. Assim,
multiplicaram-se Josés Marias, Dorothys, Franciscos,
Margaridas. Todos eram os mártires de Carajás
e de tantas outras batalhas, na insistência de lutar por
um outro mundo, um outro projeto de desenvolvimento e de sociedade.
Sobre o
asfalto preto transmutado em chão sagrado, foi celebrada
a missa pelo padre Jéferson Carneiro da Silva, da Comissão
Pastoral da Terra (CPT), e por mais sete padres ligados aos
movimentos sociais. Padre Jéferson conclamou a todos
a “não esmorecer para manter de pé a luta
em favor da vida” e a “ gritar que os pobres continuam
sendo a classe privilegiada de Deus, apesar de os poderes humanos
os relegarem a nada. Precisamos colocar de pé outra vez
a voz dos que são massacrados e criminalizados”.
E exaltou a importância da unidade na luta.
Ao ato religioso,
seguiram-se pronunciamentos de lideranças dos movimentos,
que destacaram a necessidade da apuração rigorosa
do assassinato. Mas é preciso, ainda, impedir que José
Maria morra pela segunda vez, deixando-se que chegue à
morte a sua peleja. Por isso, Lourdes Vicente, integrante da
Coordenação Estadual do MST, puxou o grito que
ecoou por toda a avenida: “a cada companheiro tombado,
nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta!”
Estava selado o compromisso de todos na continuidade do combate
ao uso dos agrotóxicos e na defesa das comunidades tradicionais
da região.
O
Homem
“Se
eu morrer, continuem a minha luta. Se fizerem isso, já
terá valido a pena”, costuma dizer o ambientalista,
conforme lembrou, emocionado, o trabalhador Ricardo Cassundé,
que acompanhava as lutas de Zé Maria do Tomé,
como era conhecido. Ele tinha 44 anos quando foi alvejado por
19 tiros, destruidores tal qual a matadeira usada contra trabalhadores
que, em outros tempos, pelos sertões da Bahia, também
tentaram resistir à opressão.
Nos últimos
anos, foi presidente a Associação dos Desapropriados
Trabalhadores Rurais Sem Terra da Chapada do Apodi e denunciou
a desapropriação dos agricultores devido à
implantação de grandes projetos de irrigação
na região do Vale do Jaguaribe. Zé Maria também
denunciava o uso de agrotóxicos e a pulverização
aérea que, há dez anos, têm contaminado
famílias, terras, animais e, sobretudo, a água
da região.
“Ele
estava descendo a serra, vindo de mais ações,
como era tão comum em sua vida”, lamenta Ricardo,
ao falar dos momentos anteriores ao assassinato. Dele não
foi levada a moto, mas sim a pasta que continha documentos,
fotos e outros materiais que comprovavam as denúncias
que fazia. Essa é mais uma característica que
fortalece as suspeitas de que tenha se tratado, de fato, de
uma execução decorrida da atuação
política do agricultor. A isto se soma o fato de que
José Maria já vinha recebendo ameaças anônimas,
que chegaram a ser registradas duas vezes por meio de boletins
de ocorrência, de acordo os advogados que acompanham o
caso.
A
Terra
O professor
José Ernani Mendes, da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano,
localizada em Limoeiro do Norte, explica que a Região
do Jaguaribe tem se caracterizado, nas últimas décadas,
por um elevado nível de concentração de
terra. “Na Chapada do Apodi, o projeto de fruticultura
que vem sendo desenvolvido é um projeto marcadamente
ocupado pelo agronegócio. Para se instalar lá,
o agronegócio expulsou pequenos agricultores. Há
estudos importantes, feitos por professores da universidade,
constatando esse processo de concentração por
parte das grandes empresas do agronegócio, que ocuparam,
inclusive, terras da União”, detalha.
Junto ao
agronegócio, chegou à região também
o agrotóxico, que tem ameaçado a vida em todas
as formas. Mendes explica que as empresas fruticultoras estão
utilizando a pulverização aérea de forma
indiscriminada, o que tem causado a contaminação
da água que abastece a comunidade. Os produtos têm
gerado irritações na pele e nos olhos dos habitantes.
“A gravidade da contaminação é verificada
no aumento do número de casos de câncer na região,
que já é alarmante”, afirma o professor.
A morte
do líder comunitário traz à tona conflitos
que não são novos. Já em 2008, funcionários
da Fazenda Ouro Verde, propriedade da transnacional Del Monte
Fresh Produce Brasil Ltda. localizada na Chapada do Apodi, paralisaram
suas atividades e denunciaram as péssimas condições
de trabalho às quais eram submetidos. Os trabalhadores
da Del Monte, uma das maiores empresas do setor de produção
e exportação de frutas instaladas o Brasil, tinham
contato constante com os agrotóxicos, causando doenças
em muitos deles.
A
Luta
A morte
do líder comunitário expõe à sociedade
os conflitos que ocorrem há mais de uma década
na Chapada do Apodi: a luta contra o agronegócio e o
uso de agrotóxicos e em defesa dos trabalhadores que
têm sido expulsos de suas moradias devido à chegada
e à ocupação das terras por parte das grandes
empresas. As denúncias levaram instituições
como a Agência Brasileira de Inteligência (Abin),
o Ministério Público, a Justiça Federal
e diversas universidades a analisar os problemas na Chapada.
Apesar da
perseguição, José Maria havia conquistado
vitórias: ano passado, a Câmara Municipal de Limoeiro
do Norte aprovou uma lei que proíbe a pulverização
aérea. No entanto, a estudante de Direito Maiana Maia,
que acompanha o caso, explica que, apesar da conquista popular,
a pressão dos interesses econômicos e políticos
levou o prefeito da cidade a apresentar um Projeto de Lei que,
entre outras definições, propõe ser revogada
a lei que proibira a pulverização por aeronaves."Diante
da possibilidade desse retrocesso na luta, as comunidades pressionaram
para que se realizasse uma Audiência Pública que
tratasse especificamente do tema – pulverização
aérea – com pesquisadores, integrantes do Ministério
da Agricultura, do Ministério Público e da sociedade
civil como um todo", explica Maiana. A audiência
ocorrerá na Câmara de Limoeiro no dia 12 de maio,
e dela participarão diversos movimentos sociais.
Essa luta
agora será encampada por muitos outros Josés.
Para o ambientalista e advogado João Alfredo, vereador
de Fortaleza pelo PSOL, a morte de José Maria assemelha-se
à de Chico Mendes e a de Irmã Dorothy, pois todos
sabiam que iriam morrer, mas não desistiram da luta.
“Por isso, a nossa obrigação é assumir
essa luta do José Maria, a luta contra o sistema que
explora os trabalhadores e destrói a natureza. Nós
não deixaremos que calem essa voz”, garante Alfredo.
“É hora dos movimentos se unificarem em torno da
luta por mudanças estruturais no país”,
defende Alessandro Nunes, assessor técnico da Cáritas
Brasileira Regional. Assim, vão verter-se em verdade
os dizeres da faixa exposta durante a missa em homenagem ao
agricultor: “se me matarem, ressuscitarei na luta do meu
povo”.
Fonte
Brasil de Fato
Helena
Martins
De Limoeiro do Norte (CE)