REFORMA
TRABALHISTA:Flexibilidade e estabilidades são incompatíveis
POR GEIZA MARTINSA
A reforma trabalhista na França e no Brasil foi tema
de seminário na Faculdade de Direito da Universidade
de São Paulo e organizado pela Academia Nacional de Direito
do Trabalho nesta sexta-feira (12/03). O evento celebrou a posse
do professor Nelson Mannrich como novo presidente da Academia.
No início da palestra, o professor Antoine Jeammaud,
da Universidade de Lyon, na França, deu um panorama de
como os franceses estão lindando com a modernização
de mercado de trabalho.
De acordo
com Jeammaud, a flexibilidade organizacional para as empresas
e a estabilidade para os trabalhadores são as propostas
que mais ganharam força na reforma que está sendo
pensada. No entanto, o professor criticou a unificação
dessas duas correntes. “Querem uni-las. Mas me parece
difícil fazer um balanço entre a aplicação
da flexibilidade para as empresas e a estabilidade de recursos
dos funcionários.”
Para o francês,
tecnicamente, é difícil manter a estabilidade
e os benefícios aos trabalhadores com a implantação
da flexibilidade. Ele também destacou que esta última
tem maior peso entre os reformistas. “A balança
está mais para a flexibilidade das empresas do que para
a segurança ao trabalhador.”
O professor
também falou sobre a evolução das regras
trabalhistas e apontou a institucionalização da
negociação coletiva como uma das mais importantes
para seu país. “Hoje em dia, é impressionante
a importância do campo de negociação coletiva
que facilita as relações de trabalho, como remuneração,
normas públicas e acordos coletivos”, explicou.
Durante
a palestra, ele citou mudanças recentes que passaram
a integrar a legislação trabalhista francesa:
criação do contrato de tempo indeterminado de
trabalho, redução da jornada para 35 horas semanais
e novos meios de contratar trabalhadores que escapam da proteção
das leis. “Desde 2007, a presidência [da França]
está com uma visão mais flexível às
reformas e avanços”, informou.
Reforma
no Brasil
Representando os juristas brasileiros no seminário, estiveram
presentes o professor Amauri Mascaro Nascimento, titular em
Direito do Trabalho da USP, e o ministro do Tribunal Superior
do Trabalho, Pedro Paulo Teixeira Manus. Mascaro Nascimento
defendeu veementemente a reforma do Direito trabalhista brasileiro.
“É absolutamente necessária. Nossa sociedade
não é mais restritamente industrial, é
pós-industrial”, defendeu.
O professor
explicou que o vínculo trabalhista ainda é feito
da maneira tradicional e mencionou o surgimento de novas relações
de trabalho. “A CLT se mantém fiel aos tradicionais
patronos do início da industrialização.
Outras relações surgiram e ela não pode
seguir essas normas”, continuou.
Mascaro
Nascimento destacou que a reforma dever ser de âmbito
do Direito Individual do Trabalho — que considera os interesses
concretos de indivíduos determinados. Para ele é
essencial essa “regulamentação da valorização
da dignidade humana”. Também sugeriu o fim das
regulamentações especiais: “Um contrato
coletivo poderia regulamentar as categorias. Assim, a responsabilidade
ficaria, do ponto da lei, para o contrato”.
O professor
polemizou ao lembrar a regulamentação dos autônomos.
“Quando se anda pelo centro da cidade, é fácil
encontrar uma grande quantidade de camelôs. É preciso
que esses autônomos deixem de ser excluídos. A
lei também deve protegê-los. São trabalhadores
da sociedade moderna”, ressaltou. Em relação
às empresas, lembrou que a microempresa não pode
respeitar a mesma regulamentação das de grande
porte.
O ministro
Pedro Paulo Teixeira Manus fugiu um pouco do tema da reforma.
Ele pareceu preocupado em reduzir o número de processos
na Justiça trabalhista e ter mais qualidade nas decisões.
Para ele, a questão fundamental é a mudança
na mentalidade de todos envolvidos com a Justiça do Trabalho.
“A reforma é cultural, temos que mudar esse pensamento
de recorrer até conseguir uma decisão favorável”,
opinou.
Manus afirmou
que essa atitude resulta em um número muito alto de processos,
o que gera a queda da qualidade e erros de decisões.
“Em fevereiro de 2009, o TST contava com 617 processos
para cada relator. Neste ano, esse número subiu para
877. É assustador”, disse. O ministro ainda chamou
a atenção para a uniformização das
jurisprudências nos Tribunais Regionais do Trabalho. “Teremos
volumes de processo reduzido e julgamentos com qualidade”,
finalizou.
Novo presidente
O Nelson Mannich tomou posse nesta sexta-feira (12/3) como presidente
da Academia Nacional de Direito do Trabalho, substituindo Georgenor
de Sousa Franco Filho, que esteve à frente da entidade
por dois mandatos, de 2006 a 2010. Durante o discurso de posse,
Mannich analisou o cenário atual do trabalho. “Todos
reconhecemos que o trabalho é dever e direito. O ritmo
de trabalho é intenso e gera estresse. Hoje, as pessoas
não são mais felizes.” E continuou: “Essa
é a era de agressividade de fusões que não
parecem ter fim”.
O professor
ainda destacou que os cidadãos não devem “idolatrar
o trabalho”. “Não podemos viver para trabalhar,
mas sim trabalhar para viver”. Como promessas para seu
mandato, ele destacou que buscará uma sede para a academia.
“É ideal para o cultivo da memória. Nosso
acervo está disperso,” disse. Também destacou
a importância de a academia atuar em parceria com outras
entidades, como centros de estudos, associações
e instituições.
Cerca de
100 pessoas estiveram presentes na posse. Entre as autoridades,
o presidente do Tribunal Regional do Trabalho de São
Paulo, desembargador Decio Sebastião Daidone, e o ministro
aposentado Vantuil Abdala.