Depressão:
Muito séria, pouco compreendida
Nájia Furlan [24/06/2007]
Além de comum, a depressão
é uma doença bastante séria. No entanto,
ainda é pouco compreendida. Muitos podem não reconhecer,
mas tão grave é o transtorno que as conseqüências
chegam a atingir todos os segmentos da vida de uma pessoa. Isso
inclui o profissional. De acordo com o psiquiatra Acioly Lacerda,
professor de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina, “é
uma das maiores causas de falta e afastamento do trabalho”.
Segundo o médico, a depressão,
como qualquer doença, se manifesta e é identificada
através de sintomas que aparecem em quadro permanente:
“tristeza, perda de interesse e outros sinais, como falta
de apetite, sono, dificuldade de memória e concentração,
irritabilidade, ansiedades, dores, sensação de indisposição
e fraqueza”, enumera Lacerda.
São exatamente esses “sinais”
que, quando constatada a doença, têm reflexos no
desenvolvimento da atividade profissional. “Quanto mais
intelectualizada é a função como os cargos
de direção, que exigem tomadas de decisão,
maiores os prejuízos”, indica o médico. Ainda
segundo Lacerda, apesar de, muitas vezes, o paciente perceber
que enfrenta algum transtorno emocional, é difícil
de encarar que isso é uma doença. “Geralmente
as pessoas associam isso ao excesso de trabalho, estresse e pensam
que precisam apenas de descanso. Porém, no caso da depressão,
não melhora com as férias”, completa.
Outro problema que os depressivos
enfrentam no ambiente do trabalho é a falta de compreensão.
“Um grande problema que percebemos nas empresas é
que jamais eles atribuem a queda de produtividade dos funcionários
a uma doença. As empresas apenas entendem as doenças
que apresentam quadros físicos. Sabendo ou não da
gravidade da depressão, infelizmente ainda muitos recebem
a doença de maneira preconceituosa”, diz o psiquiatra.
Uma maneira de mudar isso, segundo Lacerda, seria as empresas
reconheceram que o problema é sério, assim como
as conseqüências.
Casos
O responsável pelo setor
de saúde da Delegacia Regional do Trabalho (DRT) do Paraná,
Sérgio Silveira de Barros, conta que quase que diariamente
o órgão recebe trabalhadores com indícios
de depressão. “Sabemos que a depressão pode
acarretar o afastamento do trabalho. O que sabemos é que
com o tempo uma pessoa com depressão, como outra doença,
perde produtividade”, afirma. Ele informa que o INSS reconhece
esta doença como motivo de afastamento e até de
aposentadoria por invalidez.
Mesmo cientes dos sintomas e das
conseqüências, “a maior parte dos trabalhadores
não sabem onde e como buscar ajudar e tratamento”,
aponta Barros. Ele conclui que o dever da empresa é propiciar
um ambiente saudável aos trabalhadores, inclusive emocionalmente.
Problema de difícil diagnóstico
Os profissionais reconhecem a gravidade
da depressão. No entanto, a psicoterapeuta e psiquiatra
Maria Lúcia Maranhão Bezerra ressalta que é
preciso muito cuidado ao identificar o problema, para não
banalizar. “A depressão é um diagnóstico
difícil, que envolve muitas sutilezas, ao contrário
do que possa parecer”, diz.
A médica cita três
coisas que precisam ser distinguidas nesta identificação:
“são três fatores distintos: primeiro, a tristeza
comum; segundo, os diferentes processos de lutos (simples e complicados);
e, terceiro, que pode ser dificuldades em encarar alguma área
de imaturidade, um período de turbulência emocional”,
explica Maria Lúcia.
Ela também explica por que
a depressão afetaria o trabalho. “Este é um
ambiente que exige um pouco de neutralidade e contenção
emocional e quando há uma inundação de emoção
acaba atrapalhando o desempenhar das atividades”, pontua.
A psiquiatra concorda que a depressão é uma doença
que faz sofrer e que afeta a vida tanto pessoal quanto profissional
da pessoa. Porém, ela completa que existe tratamento e
que este deve ser buscado o quanto antes. “O tratamento
é feito tanto com psicoterapia (com psicólogos e
psiquiatras) quanto com remédios. A pessoa deve procurar
ajuda profissional sem demora, pois muito pode ser evitado. O
atendimento precoce está ligado à prevenção
em saúde mental, antes de deixar que os processos se agravem
e gerem conseqüências dramáticas”, orienta.
(NF)
Pacientes sofrem muito preconceito
Assistente social no setor de oncologia
de um grande hospital de Curitiba, Ana (nome fictício da
paciente, que preferiu não se identificar) sabe bem as
conseqüências da depressão. Ela já passou
por fases crônicas, mas hoje, com o problema sob controle,
quer voltar ao trabalho, mas sabe que enfrentará preconceito.
“Faz mais de dez anos que
tenho depressão. Quando o problema ainda não era
tão grave eu conseguia trabalhar, sem que meus colegas
ou mesmo os pacientes notassem que eu estava doente, apesar de
eu atuar em um setor delicado”, relata Ana. Ela conta que
a doença foi evoluindo e chegou a um estágio em
que as conseqüência não eram mais controladas.
“Chegou a um ponto que começou a interferir no meu
trabalho. Apesar de eu amar o que fazia, eu não estava
mais conseguindo ir trabalhar”, continua.
Ela teve que, então, entrar
em licença e buscar tratamentos mais efetivos. Chegou a
ficar muito tempo afastada do trabalho. “Penso em voltar,
mas caso aconteça, quero ir para um setor diferente do
que atuava. Existe um preconceito muito grande em relação
à depressão. Cheguei a ouvir, inclusive, que depressão
era falta de caráter e preguiça de trabalhar. Somos
rotulados”, lamenta Ana.
Segundo ela, a decisão de
buscar ajuda profissional foi dela mesma. “Eu via que tinha
tudo, mas não encontrava sentido na vida. Vi que começou
a interferir demais em toda minha vida. Foi aí que busquei
tratamento. Hoje estou alegre e tenho, novamente, tudo sob controle”,
define.
Para as pessoas que enfrentam o
mesmo problema, Ana faz a seguinte recomendação:
“a pessoa não deve sentir vergonha ou receio de buscar
ajuda. Quanto mais tarde, mais difícil. É uma doença
como outra qualquer”. (NF)
Fonte: http://www.parana-online.com.br/noticias/index.php?op=ver&ano=temp&id=288533&caderno=8