OIT aponta aumento da discrimação no mercado de
trabalho
Segundo relatório da Organização
Internacional do Trabalho, fumantes, obesos, jovens e idosos vêm
encontrando maiores dificuldades para arrumar um emprego
Lígia Formenti
BRASÍLIA -
Os fumantes, pessoas obesas ou com histórico de problemas
de saúde na família passam a enfrentar maior dificuldade
para adquirir empregos - e maior facilidade para perdê-los.
É o que mostra um relatório da Organização
Internacional do Trabalho (OIT), divulgado nesta quinta-feira,
10.
O estudo da OIT, o segundo dedicado a analisar
a discriminação profissional, mostra ainda que jovens
e idosos vivem dificuldades crescentes para encontrar trabalho.
Ao primeiro grupo, restam geralmente ocupações temporárias,
que oferecem menos benefícios, menos oportunidades de formação
e poucas perspectivas profissionais.
Entre pessoas mais velhas, a discriminação
é justificada pelos custos elevados de seu trabalho, associado
a uma teórica perda de produtividade. O relatório
também faz um alerta para a crescente discriminação,
na Europa, de trabalhadores migrantes, sobretudo de algumas etnias.
"Uma das constatações
mais contundentes do relatório é que a discriminação
representa um prejuízo não só para os grupos
afetados, mas para toda a sociedade - que deixa de aproveitar
todo o potencial que essas pessoas teriam a oferecer", afirma
a diretora da OIT no Brasil, Laís Wendel Abramo.
No Brasil não há números
ou estudos específicos sobre as novas formas de discriminação
no trabalho. Laís Abramo chama atenção, porém,
para o fato de que este fenômeno não vem de hoje.
"A discriminação no trabalho é dinâmica,
muitas vezes sua forma de manifestação se altera,
daí a necessidade de estarmos atentos e adotarmos medidas
rápidas para evitar que tais práticas se consolidem",
observa.
No caso dos fumantes, afirma a diretora
da OIT, começa a se criar uma discussão sobre uma
eventual interferência das empresas na vida e escolha pessoal
de seus funcionários. "Discriminar um trabalhador
fumante nos faz pensar até que ponto a empresa não
está invadindo a vida privada de seu funcionário",
completa.
Brasil
O relatório da OIT faz várias
referências elogiosas ao País. Cita a criação
da Secretaria Especial de Direito das Mulheres e da Igualdade
Racial como iniciativas importantes para tentar reduzir a discriminação
no trabalho, ainda muito marcante no Brasil.
O estudo constata que, embora a situação
tenha apresentado uma discreta melhora nos últimos 10 anos,
ainda é extremamente significativa a desigualdade de gênero
e raça no mundo do trabalho brasileiro. "E não
estamos falando de minorias. Mulheres e população
negra representam 70% dos brasileiros", constata.
Mulheres negras são as que mais sofrem
com a discriminação. Embora a situação
deste grupo - o mais marginalizado no País - tenha melhorado
significativamente, elas apresentam a menor taxa de participação
no mercado de trabalho, menor taxa de ocupação,
maior taxa de desemprego e menor rendimento. A diferença,
em 1995, era bem mais significativa.
A taxa de ocupação de mulheres
negras naquele ano era de 48,2%, enquanto que homens brancos,
que figuravam no topo da lista, apresentavam 74,9%. Em 2005, a
taxa de ocupação de homens brancos caiu para 73,3%,
enquanto que mulheres negras passaram para 52,7% - o que representa
um crescimento de 40,8%. Mulheres brancas também tiveram
uma ampliação, mas num ritmo inferior: 22,4%, comparado
com 2005.
A população negra também
apresentou um crescimento expressivo na taxa de ocupação:
33,1% em comparação aos 15,1% do crescimento da
população branca. Esta tendência para melhor
distribuição do mercado de trabalho se deve principalmente
ao aumento significativo da escolaridade das mulheres negras.
Mas também ao fato de que, durante a crise econômica
enfrentada na década de 90, homens com melhor qualificação
e remuneração, foram os mais afetados.
Remuneração
É justamente na remuneração
que a diferença entre homens, mulheres, brancos e negros
se destaca. Ao se comparar o rendimento dos 50% dos mais pobres
do mercado vê-se que mulheres negras recebem metade do que
homens brancos. Em 2005, a média dos rendimentos da população
mais pobre masculina era de R$ 632. Mulheres negras, por sua vez,
receberam em média R$ 316.
A diferença, no entanto, já
foi bem maior. Em 1995, 50% dos brancos mais pobres recebiam R$
715, enquanto mulheres brancas, R$ 223. Essa redução
da diferença é atribuída a dois pontos: aumento
real do salário mínimo e crescimento da escolaridade
entre mulheres negras.
O relatório da OIT mostra que discriminação
de mulheres no mercado de trabalho está presente em todo
o mundo, em graus variados. Na África, os costumes como
a negação do direito das mulheres à propriedade
e outros tipos de bens faz com que tais diferenças se acentuem.
No continente, as diferenças nos últimos 10 anos
pouco mudou. Mulheres africanas recebem menos do que homens e
estão sujeitas a trabalhos com menor remuneração.
Na União Européia, mulheres
representam 62% do mercado de trabalho. Hoje, mulheres européias
têm maior chance de ocupar postos de alta direção
e gestão. Mas há também o que melhorar. Mulheres
com altos cargos representam ainda uma minoria, cerca de 28% de
todo o mercado, e o ganho bruto delas por hora é 15% menor
do que o deles.