Fiscalizações
em carvoarias ilegais libertam 51 pessoas
Houve flagrante de escravidão em 6 carvoarias:
trabalhadores não recebiam salários e permaneciam
até 35 dias sem folga. Patrões valiam-se da servidão
por dívida, mas evitavam anotar em cadernos para enganar
fiscalização
Por Bianca
Pyl
Das sete carvoarias
fiscalizadas pelo grupo móvel do Ministério do Trabalho
e Emprego (MTE) no sudeste do Pará, seis mantinham trabalhadores
em condições análogas à escravidão.
Ao todo, 51 pessoas - entre elas sete mulheres e um adolescente
de 15 anos - foram libertadas das fazendas localizadas em Rondon
do Pará (PA) e Abel Figueiredo (PA), próximos à
Rodovia BR-222.
"Encontramos
todo tipo de ilegalidade nessas carvoarias. Eles não tinham
licença ambiental para produzir o carvão vegetal,
não tinham notas fiscais das vendas dos produtos, e, em
alguns casos, nem título de propriedade", explica
a auditora fiscal Virna Soraya Damasceno, que coordenou a operação,
que se desdobrou de 21 e 31 de outubro. As denúncias do
crime partiram da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá,
cidade referência do sudeste paraense.
Exemplo da condição encontrada no PA: trabalhador
sem equipamentos em carvoaria (Foto: MTE)
Nas seis fazendas
flagradas, a situação era parecida: trabalhadores
submetidos a condições desumanas, desprovidos de
equipamentos de proteção individual (EPIs), sem
receber salários e sem registro em carteira de trabalho.
"Eles
estavam alojados em barracas de lona preta ou de palha, com chão
de terra batida. Em duas propriedades, o abrigo era de madeira,
mas também cheio de irregularidades. Não havia banheiros,
e eles eram obrigados a utilizar o mato. A água vinha de
córregos próximos às fazendas", descreve
Virna, do MTE.
Os proprietários
evitaram anotar os valores cobrados dos funcionários na
tentativa de escapar do crivo dos fiscais. "Não conseguimos
encontrar nenhuma caderneta de dívidas. Porém, os
trabalhadores relataram que compravam a comida diretamente do
empregador e o acordo para desconto era verbal. Agora os empregadores
não anotam nada para não caracterizar servidão
por dívida (previsto como crime no Artigo 149 do Código
Penal). Ou seja, é uma forma de burlar a fiscalização",
constata a coordenadora da operação.
Trabalhadores estavam alojados em barracos de
palha sem as mínimas exigências (Foto: MTE)
O pagamento em todas as propriedades era por produção.
Com isso, os carvoeiros trabalhavam diariamente. "Eles ficavam
três dias fora da carvoaria e depois voltavam. Faziam jornadas
de 30 a 35 dias sem sair do local de trabalho e assim não
tinham folga nos finais de semana. E o pior: nem recebiam pelas
horas a mais de serviço", completa Virna.
Duas carvoarias
visitadas pelos fiscais já foram pegas explorando mão-de-obra
escrava no passado. Há três anos, as propriedades
de José Maurício Rodrigues Vieira e de José
Carlos Castro dos Santos foram flagradas pelo grupo móvel.
Na época, os donos não foram autuados, pois a Usina
Siderúrgica do Marabá S/A (Usimar), que comprava
o carvão vegetal, acabou responsabilizada. "A empresa
assumiu o pagamento das verbas rescisórias. Desta vez,
não conseguimos encontrar nenhuma nota fiscal para identificar
quem são os compradores do carvão. Os proprietários
foram autuados e pagaram os trabalhadores", explica Virna.
Desta vez, foram libertadas respectivamente sete (incluindo um
adolescente) e três pessoas das fazendas de José
Maurício e José Carlos.
Gláucio
Araújo de Oliveira, procurador do Ministério Público
do Trabalho (MPT) que fez parte da operação, firmou
um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com a Carvoaria Santa Lúcia
Ltd a. O proprietário Mário Lúcio Teixeira
pagou dano moral individual de R$ 1 mil para cada um dos 19 trabalhadores
libertados. Além disso, Mário Lúcio pagou
R$ 50 mil por dano moral coletivo, valor que será revertido
em equipamentos para a Polícia Rodoviária Federal
(PRF), que acompanhou a fiscalização e apreendeu
três armas de fogo e um caminhão com 70 metros de
carvão, que foi encaminhado para a Polícia Civil
de Marabá.
Por meio do
TAC, o dono da fazenda também se comprometeu a regularizar
a situação da propriedade. Ele também é
dono da Fazenda Califórnia, que tinha 30 fornos para queima
do carvão, onde foram libertadas três pessoas.
Abrigos dos carvoeiros cobertos por lona: grupos
passavam até 35 dias sem descanso (Foto: MTE)
O MPT também firmou um TAC com Jaime da Silva Pereira,
dono de outra carvoaria fiscalizada que prometeu regularizar o
quadro trabalhista. Ele fez o pagamento de R$ 1 mil a cada um
dos nove empregados por dano moral individual e ainda destinou
R$ 40 mil em dano moral coletivo para compras de equipamentos
para a PRF. No local, foram apreendidas três motosserras.
Na sexta localidade
flagrada - a carvoaria de Landualdo Silva Santos - houve dez libertações.
Em apenas
uma das carvoarias, o cenário encontrado foi bem diferente,
mostrando que é possível oferecer condições
de trabalho aceitáveis mesmo em regiões de fronteira
agropecuária. Não houve libertações
na carvoaria de Valdean Cunha de Oliveira. "A segurança
e saúde do trabalhador estavam sendo respeitadas. Eles
recebiam em dia, tinham equipamentos de proteção
individual, o alojamento era de madeira, com piso, banheiro e
cama, de acordo com a lei. Os empregados consumiam água
p otável. A única irregularidade era a carteira
de trabalho sem registro", relata Virna. O proprietário
registrou as pessoas com data retroativa os oito empregados que
puderam permanecer no local.
A maioria
dos libertados é do município de Rondon do Pará;
alguns vieram do sul do Maranhão. As indenizações
trabalhistas chegaram a R$ 80 mil.