Estudo
discute relação entre câncer e trabalho
Maior
parte dos casos envolve pacientes do meio rural
Identificar
as causas de doenças e saber a relação que
elas têm com o trabalho do paciente, melhorando o sistema
de informação do Centro de Referência em Saúde
do Trabalhador. A partir daí, criar políticas públicas
que
possam prevenir as chamadas doenças de trabalho. Este é
o objetivo de uma pesquisa desenvolvida por uma equipe do Centro
de Referência, com a colaboração da Universidade
Estadual de Londrina (UEL) e o Hospital do Câncer de Londrina
(HCL). A pesquisa foi premiada como Melhor Trabalho Científico
no 3º Simpósio Paranaense de Patologia Experimental,
realizado na UEL e aceito no XVIII Congresso Mundial de Epidemiologia,
que acontece em Porto
Alegre, no final do mês.
O
trabalho foi desenvolvido pela fisioterapeuta do Centro de Referência,
Claudete Romaniszen, pela docente do Departamento de Saúde
Coletiva da UEL, Elisabete de Fátima Nunes e pela estudante
do 4º ano de enfermagem, Fabiane
Gorni, que
desde 2005 pesquisaram 784 fichas de pacientes atendidos no HCL.
Foram selecionadas as fichas que tinham os tipos de câncer
integrantes da lista de neoplasia relacionadas ao trabalho, segundo
dados do Ministério da Saúde. Entre os principais
tipos estão a doença de pele, estômago, laringe,
brônquios e pulmão e somados, totalizando 296 casos.
Segundo as
pesquisadoras, a maior parte dos casos (todos pacientes da 17
Regional de Saúde) envolvia pacientes que têm uma
ligação com o trabalho no meio rural. Em primeiro
lugar, com 60,8% de incidência, apareceu o câncer
de
pele que predominou
em trabalhadores ligados a atividades agrícola. Os casos
da doença no estômago (17,6%), pulmão e brônquios
(7%) e laringe (6,4%) indicaram uma possível relação
com a exposição a agrotóxicos, inseticidas
e
fuligem, também
comuns no meio agropecuário. “Isso é apenas
uma indicação. Pesquisas precisam ser feitas de
forma mais aprofundada para confirmar os dados”, afirma
a professora da UEL, Elisabete de Fátima Nunes.
A intenção
é desenvolver uma série de pesquisas e formar equipes
de saúde que vão detectar a ligação
entre as doenças com o trabalho. “Hoje o atendimento
clínico não contempla uma informação
precisa sobre a situação do
trabalhador.
Precisamos questionar qual a ocupação desse trabalhador,
ouvir sua queixa e descobrir se ela tem relação
com o trabalho. A partir daí teremos que melhorar a formação
dos profissionais de saúde”, explica afisioterapeuta.
A medida será
aplicada ainda este ano, quando serão formadas novas equipes.
Já no segundo semestre estão programadas 25 turmas
com 35 profissionais das 54 Unidades Básicas de Saúde
de Londrina. “São profissionais que estarão
mais atentos para identificar as reais causas das doenças
e verificar se elas estão relacionadas à atividade
profissional do paciente”, afirmam as pesquisadoras.
Obrigatoriedade
De
acordo com as pesquisadoras, em todo o Brasil são poucos
os dados referentes às doenças relacionadas ao trabalho.
Em 99, o Ministério da Saúde, lançou uma
lista com as doenças que passaram a ter notificações
obrigatórias
e só a partir daí contemplou as doenças do
trabalho. “Precisamos ampliar essas informações,
garantir diagnóstico precoce e fazer com que as políticas
públicas funcionem”, afirma a a professora Elisabete.
A
pesquisa “Neoplasias relacionadas ao trabalho: estudo de
morbidade em um hospital de referência”, finalizada
no ano passado, será apresentada no próximo dia
20 no XVIII Congresso Mundial de Epidemiologia, em Porto Alegre.