Vítimas
do amianto pedem compensação
Moradores acompanharam os trabalhos dos técnicos
Diante das
câmeras de fotógrafos e cinegrafistas, o ex-trabalhador
da antiga mina de amianto da Fazenda São Félix,
Edson Ribeiro de Melo, 78 anos, contou sua história, na
noite de anteontem, no pátio do Centro Educacional Vitorino
José Alves, em Bom Jesus da Serra (470 km de Salvador e
a 29 km de Poções).
O seu relato
e o de outros nove ex-trabalhadores foram gravados pelos integrantes
do Grupo de Trabalho (GT) da Comissão de Meio Ambiente
e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados
que estiveram no local para conhecer a situação
da mina e a dos ex-trabalhadores.
Bem-humorado,
apesar do problema pulmonar (as placas pleurais adquiridas no
contato com a fibra mineral, que ao ser aspirada pode causar câncer),
ele tinha na memória a lembrança do dia em que a
empresa (Sama Mineração de Amianto Ltda.) reuniu
os trabalhadores para a assinatura de um acordo para negociação
de indenizações.
Edson, que
diz ter recebido um cheque de R$ 7 mil, conta que só depois
de terem assinado é que ficaram sabendo dos valores que
seriam pagos de acordo com o grau das doenças. "Eles
jogaram a tarrafa, pegaram todos de uma vez e só depois
é que foram dizer o que era", queixou-se, usando de
metáfora para descrever a estratégia da empresa.
Outro que
chamou a atenção foi Altamiro Batista Santos, de
70 anos, que trabalhou 11 anos na mina em serviços braçais.
Mesmo depois de internado em um hospital de Vitória da
Conquista, quando ficou sabendo que não podia mais contar
com um dos pulmões e de o laudo atestar neoplasia pulmonar,
ele teve o caso reduzido a "uma coisinha de nada", conforme
lhe teriam dito os médicos da empresa que o examinaram
em São Paulo.
Os relatos
deixaram chocado o deputado federal Edson Duarte (PV/BA), que
é relator do GT do Amianto da Câmara dos Deputados.
"Fiquei chocado com a naturalidade com que eles lidam com
questões tão graves de doença e até
morte, como se fosse normal", disse.
Também
impressionou o parlamentar o abandono em que se encontram os ex-trabalhadores.
"Estão empobrecidos, doentes, têm pouca ou nenhuma
escolaridade e sem nenhuma intermediação no relacionamento
com a empresa, que é quem define os critérios de
indenização e de atendimento à saúde
por meio de planos de saúde dados a eles", observou.
Após
ouvir os depoimentos, os participantes da audiência pública
foram à antiga mina, que fica a 5 km da cidade de Bom Jesus
da Serra.
A antiga vila operária, que chegou a ter 80 casas, escola,
igreja, cinema e quadra poliesportiva, está em ruínas.
Apenas cinco famílias moram ali com o onsentimento dos
atuais proprietários da fazenda. A mina foi explorada de
1939 a 1967 e há 40 anos foi desativada.
Como as doenças
provenientes do amianto levam até 40 anos para se manifestar,
somente a partir da década de 90 é que os casos
de ex-trabalhadores contaminados começaram a surgir. Em
seus relatos, os trabalhadores contam que não usavam nenhuma
proteção. A empresa alega que na época não
se tinha conhecimento dos malefícios do amianto, mas a
líder do movimento pelo banimento do amianto no País,
Fernanda Giannasi, que também foi a Bom Jesus, conta que
desde o início do século passado os efeitos nocivos
do asbesto começaram a ser conhecidos.
Dos 300 trabalhadores,
cerca de 120 foram examinados pela empresa. De acordo com informações
do gerente de saúde ocupacional da Sama, Milton do Nascimento,
25 ex-trabalhadores tiveram alterações de saúde
devido ao trabalho na mina comprovadas e por causa disso receberam
indenizações e plano de saúde.
No Fórum
de Poções, os processos judiciais que pedem indenização
das vítimas e recuperação do meio ambiente
estão parados há sete anos sem decisão.