Governo brasileiro mantém
uso do amianto
Rio e Minaçu/GO - Ogoverno brasileiro, na contramão
de 48 países e descumprindo duas convenções
da Organização Internacional do Trabalho (OIT),
decidiu não banir o amianto, mantendo o uso controlado
regulado pela Lei 9.055, de 1995. De acordo com os números
oficiais, morrem no Brasil mais de cem pessoas por ano de mesotelioma
(câncer da pleura, a membrana que envolve o pulmão),
provocado pela fibra de amianto. É um câncer devastador.
A sobrevida é de pouco mais de um ano. Mas a falta de notificação
da doença ocupacional é gritante: só há
registros nos grandes centros e 78% dos casos são das regiões
Sul e Sudeste, mais aparelhadas no diagnóstico da doença.
Mesmo assim, com pouca notificação, os casos vêm
aumentando.
— Em 1980, foram registrados 50 casos. Em 2003, 179 mortes
por câncer de pleura. Isso, sem contar os que morrem de
asbestose (insuficiência respiratória) , também
provocada pelo acúmulo da fibra nos pulmões —
disse o sanitarista Hermano Castro, coordenador do Centro de Estudos
da Saúde do Trabalho e Ecologia Humana da Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Castro acompanha cerca de cem pessoas que, nas décadas
de 80 e 90, trabalharam na indústria têxtil Asberit,
em Barros Filho, no Rio, produzindo roupas com isolamento térmico.
De 300 examinados, metade teve problemas respiratórios.
O Brasil perdeu a oportunidade de se alinhar aos países
que baniram as substâncias cancerígenas do ambiente
de trabalho, na opinião do consultor para Saúde
e Segurança no Trabalho da OIT no Brasil,
Zuher Handar. A organização estima que morrem 634
mil trabalhadores de câncer ocupacional no mundo e 140 mil
de doenças respiratórias: — A OIT recomenda
o banimento do amianto, e o Brasil ratificou duas convenções,
a 162, que prevê o uso controlado até que se desenvolva
um substituto (o país já desenvolveu essa tecnologia),
e a 139, na qual o país se compromete a excluir do processo
de trabalho qualquer substância cancerígena.
A Fiocruz estima que haja 50 mil trabalhadores expostos à
fibra.
Aos 49 anos, Ruth Maria Nascimento já perdeu 40% da capacidade
respiratória. Há oito anos, foi diagnosticada a
asbestose, depois de 12 anos de trabalho com a fibra. Quando está
bem, ela consegue pelo menos varrer a casa. Ruth hoje é
presidente no Rio da Associação Brasileira dos Expostos
ao Amianto (Abrea): — Limpávamos a linha de produção.
Nunca soubemos que a fibra matava. Já perdi dez colegas.
A discussão sobre o fim do uso da fibra é de 2004.
Os ministérios de Trabalho, Previdência Social, Meio
Ambiente e Saúde se posicionaram a favor do banimento gradual.
Os ministérios de Minas e Energia e Desenvolvimento, pela
política atual de uso controlado. Na época, a ministra
de Minas e Energia era Dilma Rousseff, que assumiu a Casa Civil,
e a ela coube decidir sobre o tema. Prevaleceu a posição
de Minas e Energia. Segundo o Planalto, verificou-se que a legislação
é adequada e está sendo cumprida.
— Não se pode criminalizar a matériaprima.
É uma questão de disputa de mercado. É uma
fibra cancerígena sim, todos sabemos. Onde não há
uso controlado, tem que fechar.O Brasil tem a legislação
mais avançada do mundo — diz Claudio Scliar, secretário
de Geologia, Mineração e Transformação
Mineral do Ministério de Minas e Energia.
Marcos Perez, coordenador da Área de Saúde do Trabalhador
do Ministério da Saúde, é a favor da substituição
gradual da fibra.— Usar a fibra de forma controlada não
é ideal. O controle não é eficaz. Só
de 1980 até agora, já listamos mais de dois mil
óbitos de câncer de pleura relacionado ao amianto.
Uma barreira para controlar o uso do amianto é que ele
ultrapassa as fronteiras das fábricas e mina. Segundo Perez,
houve casos de pessoas que morreram com mesotelioma sem nunca
ter trabalhado com a fibra: — A morte de um rapaz de 23
anos nos intrigou, já que o tempo de incubação
da doença passa de 20 anos.
Mas descobrimos que o pai trabalhava com isolantes de tubos de
amianto. As fibras trazidas do trabalho provocaram a morte do
filho. Morador de Minaçu, em Goiás, onde funciona
a única mina de amianto do Brasil, Mário Pereira,
70, é um exemplo do que o amianto causa. Vítima
de asbestose, ele precisa parar a cada 40 metros para respirar
quando caminha.
Natural de Poções (BA), Mário faz parte do
grupo de baianos que se mudou para Minaçu seguindo a Sama,
a mineradora da Eternit, quando a mina da cidade da Bahia acabou.
Empresas: uso errado fez Europa proibir _ Marina Aquino, presidente-executiv
a do Instituto Crisotila — que reúne a Mineradora
Sama, 17 fábricas, sindicatos de trabalhadores, Ministério
de Minas e Energia, Secretaria de Indústria e Comércio
de Goiás e Prefeitura de Minaçu —, diz que
a legislação brasileira é a mais avançada
do mundo, e que não há contradição
frente à direção que o mundo está
tomando: — O uso na Europa foi indiscriminado, provocando
indenizações altíssimas. Marina afirma que
no instituto há registros de 37 mortes decorrentes de doenças
relacionadas ao amianto, 234 disfunções respiratórias
e 400 casos de placas pleurais em 67 anos de uso do amianto no
Brasil, com passagem de cerca de cem mil trabalhadores.
Brasil, 4º maior produtor, exporta para países com
pouco controle. Ambientalistas criticam venda para locais sem
fiscalização no trabalho.
O Brasil é o quarto maior produtor de amianto do mundo,
com mais de 220 mil toneladas por ano, perdendo apenas para Rússia,
Cazaquistão e China, e respondendo por cerca de 11% de
toda a produção mundial. A importância econômica
dessa fibra está num movimento estimado pelo mercado em
R$ 2 bilhões anuais.
O consumo interno vem caindo, e a exportação tem
sido o caminho para escoar a produção da maior mina
da América Latina e a terceira do mundo: a jazida Cana
Brava, que fica em Minaçu (GO) e pertence à Sama,
empresa do grupo Eternit. Especialistas criticam esse comércio
brasileiro, já que a exportação é
feita para países com pouco controle sobre os ambientes
de trabalho que usam a fibra, comprovadamente cancerígena.
Eduardo Algranti, médico da Fundacentro, entidade que estuda
acidentes e doenças ocupacionais e é ligado ao Ministério
do Trabalho, é um desses críticos. Ele lembra da
situação inversa que o Brasil vive hoje. Há
20 anos, conta ele, os ativistas pelo fim do amianto criticavam
o Canadá, que não usava a fibra, mas exportava:
— O consumo no Brasil vem caindo, e o país, a cada
dia, exporta mais para países sem condições
de fiscalizar os ambientes de trabalho.
Ministério vê disputa comercial por trás do
debate Claudio Scliar, secretário de Geologia, Mineração
e Transformação Mineral do Ministério de
Minas e Energia, tem outra visão. Segundo ele, essa discussão
está diretamente ligada à disputa comercial: —
Essa discussão do banimento tem a ver com disputa acirrada
de mercado. Já há suspeitas de que fibras sintéticas
alternativas são nocivas à saúde também.
Alheia aos movimentos de mercado, a família de Rosa Amélia
de Araújo ainda sofre com a perda de uma das maiores lutadoras
contra o amianto.
Há mais de dez anos, quando se viu doente, começou
a enviar colegas de trabalho na fábrica Asberit para exame
na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Uma rua na fundação receberá seu nome: —
Minha mãe sofreu de hospital em hospital. Chegava em casa
branca de pó de amianto. Sofreu muito com as seguidas pneumonias
— conta a filha Inês Machado.
Em Minaçu, toda família já teve um caso fatal
Mineradora descarta novas ocorrências de asbestose e afirma
que não existem registros da doença desde 1980.
MINAÇU (GO). Existe uma cidade distante 550 quilômetros
de Goiânia, na divisa com Tocantins, onde todos sabem o
que é asbestose. Até as crianças. O conhecimento
não é por acaso.
Minaçu tem a única mina no Brasil de amianto, causador
da doença de nome estranho, originado da palavra grega
que também designa o mineral (asbesto). Popularmente, ela
é conhecida como “pulmão de pedra”.
Quem a desenvolve perde o fôlego, sofre com tosses e tem
dificuldade para respirar. Essa é a realidade de muitos
moradores de Minaçu, mesmo após a legislação
que endureceu as regras de exposição de trabalhadores
ao amianto no país.
Apesar de conviver de perto com a morte, a maioria dos 35 mil
moradores da cidade apóia a extração do produto,
realizada pela Sama, que representa a metade da economia do lugar,
proporcionando à população local um status
financeiro de destaque entre os goianos.
A saúde dos moradores da cidade e dos trabalhadores da
empresa — controlada pela Eternit — é bem melhor
agora que há 30 anos, quando Minaçu amanhecia coberta
de pó branco. Naquela época, era preciso passar
um pano nas frutas e nos pães, antes de consumi-los, para
retirar o mineral fatal. A Eternit, em nota, diz que mantém
o uso controlado do amianto.
Empresa considerou normal caso de funcionário doente Mas
os riscos de asbestose e de morte quase fulminante pelo câncer
de pleura ainda existem, e os doentes proliferam em Minaçu,
onde praticamente todas as famílias já velaram um
parente afetado pelo amianto — a despeito das negativas
oficiais.
Carmosita Domingos dos Santos, de 47 anos, teve uma experiência
ainda mais dolorosa nos últimos seis meses: perdeu o marido
e o sogro por doenças relacionadas ao minério.
O seu Isac teve a confirmação do câncer na
semana em que seu filho (marido de Carmosita) morreu, em setembro.
Ele se foi cinco meses e onze dias depois, dia 5 de fevereiro
— lamenta, aos prantos, a costureira. A dor da perda é
ampliada pela postura da empresa, que, segundo Carmosita, sabia
dos problemas do marido, mas não tomou providências
a tempo: — Se a Sama, na época dos primeiros exames
que apontaram um nódulo, tivesse nos avisado, o acompanhamento
teria sido outro, e talvez ele ainda estivesse vivo ou não
tivesse sofrido tanto.
Carmosita lembra que, em 2003, o exame periódico do exfuncionário
— que trabalhou na Sama de 1976 a 1992 — apontou um
nódulo no pulmão.
Mas a empresa enviou uma carta afirmando que a situação
de Edson era regular. Sem se preocupar com o problema, ele tentou
seguir sua rotina. Morreu de câncer generalizado.
A empresa ainda não concedeu a indenização
a Carmosita e não reconhece casos novos de doenças
causados pelo amianto. Segundo o diretor da Sama, Rubens Rela,
nenhuma ocorrência é registrada desde 1980. Para
ele, a incidência de câncer de pulmão na cidade
está dentro dos padrões nacionais.
Antes disso, tivemos alguns problemas, mas naquela época
não sabíamos dos riscos do amianto e não
havia no Brasil a cultura de uma preocupação mais
efetiva com a saúde do trabalhador.
Rela defende o uso do amianto, por considerá-lo seguro
e por acreditar que a campanha contra o mineral não passa
de uma disputa comercial das empresas que pretendem fazer caixas
d’água com fibras mais caras.
O medo em relação à empresa e o desconhecimento
dificultam a confirmação dos casos de doenças.
O relacionamento próximo entre poder público e a
principal contribuinte da Fazenda municipal é outro entrave.
Moradores que desconfiam de problemas pulmonares são levados
à clínica da Sama ou atendidos pelos médicos
da empresa. Não por acaso, o gigantesco ambulatório
na sede da Sama contém ficha médica, com cópias
de raios X, de cada funcionário atual e antigo, de terceirizados
e de moradores.
— Meu irmão trabalhou lá e já morreu.
Já detectaram um nódulo em meu pulmão, mas
dizem que está controlado. Para mim, é difícil
fazer mais coisa, lutar, não tenho muito acesso. Não
posso procurar outros médicos e minha mulher trabalha na
Sama — afirma um ex-trabalhador da empresa, que ficou na
mina por mais de 20 anos e preferiu não se identificar.
Doentes recebem indenização de R$ 10 mil O baiano
João da Cruz Santana, o seu Joanino, é da época
em que “aquela fábrica fazia com que a cidade ficasse
coberta daquele pó que parecia polvilho”, como ele
define os primeiros anos em Minaçu.
Com dificuldades para respirar e falta de ar em ladeiras há
16 anos, ele reclama um melhor atendimento da empresa: —
Eles me pagaram uma indenização de R$ 10 mil há
cerca de dez anos, prometeram um pouco mais e nada sai.
Acho que somente uma greve pode resolver isso.
O problema é que falta articulação para atender
à sugestão de seu Joanino: — Recebi R$ 10
mil há dez anos. Não pretendo colocar a Sama no
pau (na Justiça). Assinei um papel, tenho palavra, mas
a gente tem que contar o que acontece — afirma José
Carlos Oliveira, de 75 anos, que tem problemas respiratórios
diagnosticados.
Fonte: O Globo On Line
- 4/3/2007