A argumentação
sobre a flexibilização das leis trabalhistas
usa muitas vezes o exemplo dos Estados Unidos como ideal
nas relações entre empregador e trabalhador.
Não é para menos. Os Estados Unidos são
o país onde os direitos trabalhistas são,
digamos assim, mais neoliberais.
A constatação
salta de uma pesquisa elaborada pelas universidades de
Harvard (EUA) e McGill (Canadá) e publicada no
começo de fevereiro, a partir de dados da Organização
Internacional do Trabalho (OIT) e de outras fontes. A
OIT tem o maior banco de dados sobre o assunto, com a
legislação de mais de 170 países.
O estudo
mostra que lei americana é uma das mais duras com
o trabalhador em relação a licença-maternidade,
férias remuneradas, descanso semanal, auxílio-doença
e adicional noturno.
Por outro
lado, pela pesquisa, se percebe que a lei brasileira está
em sintonia com a maioria dos países desenvolvidos.
Apesar de não haver um ranking, a pesquisa aponta
a Suíça, Finlândia e Suécia
como os países em que os trabalhadores têm
mais direitos.
“O
panorama do direito trabalhista mundial nos mostra duas
correntes distintas. O sistema de proteção
do trabalho por meio de códigos e leis, caso do
Brasil e da América Latina, e o sistema contratual,
que sequer ratifica as convenções da OIT,
seguido pelos EUA e Inglaterra”, explica o advogado
Cássio Mesquita Barros, membro da Comissão
de Peritos da OIT e professor de Direito do Trabalho da
USP.
O professor
completa: “a tendência mundial, já
indicada pela própria OIT, é de um sistema
de direitos trabalhistas mínimos, já que
as empresas, com a concorrência global, não
são mais capazes de pagar os altos custos trabalhistas.
O caminho é o meio termo entre os dois sistemas
vigentes, aumentando as garantias de um e cortando os
excessos do outro”.
Licença-maternidade
Segundo
o estudo, de 173 países pesquisados, apenas cinco
não dão licença maternidade. São
eles, Estados Unidos, Libéria, Suazilândia,
Papua-Nova Guiné e Lesoto. Mais de 98 concedem
pelo menos 14 semanas de descanso. No Brasil, a trabalhadora
pode entrar de licença por 4 semanas antes do parto
e retornar somente após 12 semanas, como em outros
40 países.
Ao menos
107 países protegem os direitos das mulheres de
amamentarem os filhos durante a lactação,
como no Brasil. Em 73 nações, as pausas
são pagas. A pesquisa lembra que a amamentação
nos primeiros meses de vida reduz a mortalidade infantil.
Para a
advogada Sylvia Romano, especialista em direito do trabalho,
a licença maternidade é um dos motivos pelos
quais as mulheres recebem em média, salários
menores do que os homens. “Quanto mais protegem,
mais desobedecem. O direito a maternidade tem como resultado
uma menor vontade do empresário em contratar mulheres.
Pagam um salário menor para elas. Protecionismo
sempre bloqueia”, argumenta Sylvia.
Máximo
de semanas de licença maternidade paga
Número
de Semanas |
Número
de países |
4-7
|
4 |
8-11 |
22 |
12-13 |
43 |
14-16 |
40 |
17-19
|
16 |
20-39 |
10 |
40-51 |
2 |
52-103 |
14 |
104-155 |
5 |
156
ou mais |
10 |
Licença-paternidade
Quanto
ao beneficio da licença-paternidade, o número
cai drasticamente. Dos 173 países, apenas 65 garantem
o direito em lei. Desses, 31 concedem ao menos 14 semanas.
Como em outros 11 países, a Consolidação
das Leis do Trabalho brasileira dá ao pai menos
de uma semana de descanso. Os Estados Unidos não
oferecem o direito.
É
bom lembrar que um dos pontos positivos dos EUA nas relações
do trabalho, segundo a pesquisa, é o fato de o
país ser uma dos pioneiros no combate à
discriminação e na promoção
da igualdade salarial entre sexos, raças e portadores
de deficiências físicas.
“A
CLT é obsoleta e arcaica, tem 922 artigos. É
muito. Acho que o direito do trabalho não deve
ser nem como o americano, nem tanto como é o brasileiro
atualmente. As necessidades do trabalhador variam de uma
região para outra. É preciso levar em conta
aspectos econômicos, filosóficos, sociais
e até geográfico. O que é bom para
um trabalhador no interior de Sergipe, não é
necessariamente bom para o de São Paulo”,
diz a advogado Taube Goldenberg, especialista em direito
do trabalho.
Máximo
de semanas de licença paternidade paga
Número
de Semanas |
Número
de países |
Menos
de 1 |
11 |
1-6 |
19 |
7-11 |
1 |
12-13 |
1 |
14-16 |
2 |
17-19 |
0 |
20-39 |
6 |
40-51 |
3 |
52-103 |
9 |
104-155 |
10 |
156 ou mais |
1 |
Férias pagas
Dos países
pesquisados, 137 dão férias anuais pagas.
Destes, 121 garantem mais de duas semanas de descanso.
No Brasil, a lei concede quatro semanas. Os EUA não
têm lei que regulamenta este direito.
“A
maioria dos países estão promovendo proteções
do trabalho que milhões de americanos apenas podem
sonhar”, diz a autora do estudo, Jody Heymann, fundadora
do projeto Global Working Families, em Harvard, e diretora
do Instituto McGill's Institute for Health and Social
Policy.
Férias
anuais pagas
| Número
de Semanas |
Número
de países |
1 |
2
|
Entre
1 e 2 |
18 |
Entre
2 e 3 |
43 |
Entre
3 e 4 |
33 |
Mais
de 4 |
36 |
Horas
de trabalho
Pelo menos
134 nações possuem leis que fixam o máximo
de horas de trabalho permitidas por semana. No Brasil,
o trabalhador deve receber hora extra se trabalhar mais
de 44 horas por semana. Na França, o tempo é
de 35 horas. Por lei, os EUA não fixam nenhum limite.
No entanto, o país é um dos 117 que garantem
o pagamento da hora-extra.
Apenas
28 países restringem ou proíbem o trabalho
noturno, enquanto 50 oferecem um prêmio para quem
trabalha durante a noite. O trabalhador que dá
expediente à noite recebe 20% de adicional no salário
no Brasil. Pelo menos 126 países garantem um descanso
semanal pago de um dia.
Auxílio
doença
Em 145
países, o trabalhador que fica doente recebe mesmo
que não possa trabalhar. Em casos mais graves,
127 permitem uma semana ou mais de descanso anualmente.
Mais de 79 nações permitem benefícios
de pelo menos 26 semanas ou até a recuperação.
Em 49 casos, o trabalhador pode faltar para ir a um funeral
ou um casamento.
Duração
do auxilio doença
Número
de dias |
Número de países |
| 1-6 |
3 |
| 7-10 |
1 |
| 11-30 |
28 |
| 31 ou mais |
98 |
Porcentagem
paga do salário enquanto o trabalhador está
doente
Porcentagem |
Número
de países |
100% |
31 |
75-99% |
20 |
50-74% |
74 |
25-49% |
8 |
“Aqui no Brasil, ratificamos as convenções
da OIT mas não as seguimos. O garantismo legal
e a nossa legislação aparatosa têm
se provado ineficientes para garantir as boas condições
de trabalho em todo o território nacional”,
argumenta Mesquita Barros.
“Chamo
a legislação brasileira de dança
dos dinossauros, porque é muito pesada. Quanto
mais liberdade nas relações trabalhista
melhor. A nossa economia não é tão
dinâmica por causa disso”, explica Sylvia
Romano. Na opinião da advogada, o artigo 618 da
CLT permite que um acordo coletivo entre trabalhadores
e empregadores flexibilize as regras. “Já
consegui que emprega determinasse almoço de 20
minutos e férias de 15 dias”.
A advogada
cita um caso de flexibilização que pode
beneficiar os dois lados. “Já consegui ganhar
em três casos a participação nos lucros
mensais. Assim, um trabalhador pode receber, por exemplo,
R$ 1 mil de salário e R$ 1 mil de participação.
Ele ganha mais porque o patrão paga menos impostos”.
Os pesquisadores
de Harvard e McGill não levaram em conta a aplicação
da lei, já que trabalhadores ilegais não
recebem o direito. Para as estatísticas brasileiras,
com o altíssimo grau de informalidade das relações
de trabalho, é uma grande vantagem
Revista Consultor Jurídico,
5 de março de 2007